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Ele não pode ir ao serviço. Estava com um atestado médico de quatro dias devido a uma intoxicação alimentar. Mergulhou no sofá e se deixou ficar, enleado num cobertor, em meio a comprimidos de Plasil e antipiréticos.

QUINTA-FEIRA


      Morava em um apartamento no quarto andar, subúrbio da cidade. Da janela da sala de seu apartamento ele tinha a visão de outro prédio, no mesmo molde, vizinho ao seu. E lá havia um apartamento, no mesmo andar, defronte à sua janela, vazio há anos. Altas horas da madrugada, assistia à um filme na TV a cabo. Súbito, a luz da sala do apartamento vizinho foi acesa. Demorou algum tempo até perceber aquela luz invadindo a sua sala. Quando se deu conta, pode ver a silhueta de um homem, de pé, voltado em sua direção. A visão durou apenas alguns segundos, até o homem se retirar e a luz ser apagada. Não deu muita bola, voltou a assistir ao filme, até que adormeceu no sofá. Eram 4:06 da manhã.


Acordou moído. Levantou do sofá, pôs-se a caminho da cozinha e botou a água para ferver. Foi ao banheiro. Acendeu, apagou, acendeu, apagou, acendeu, apagou, acendeu a luz do cômodo, escovou os dentes, lavou o rosto, apagou, acendeu, apagou, acendeu, apagou, acendeu, apagou a luz. Mantinha as portas dos outros cômodos abertas, mantendo só a porta do apartamento trancada. Já era bastante constrangedor ter que passar pelo processo de destrancar e trancar a porta na mesma sequência em que ligava e desligava os interruptores sempre que lhe era necessário. Os vizinhos de porta até já estavam acostumados a ver o ritual diário, mas, ainda assim, isso o incomodava. Porém, não chegava a atrapalhar sua vida – pelo menos não o suficiente para um tratamento à base de medicamentos, mantinha seus TOCs moderadamente sobre controle. Pois bem: voltou para a cozinha, preparou o café, bebeu-o, comeu torradas para acompanhar (não poderia abusar com comidas gordurosas, ainda sentia-se fraco do estômago). Sem ter muito o que fazer, esperou o tempo passar, lendo uma coisinha aqui, assistindo a um programinha de TV ali. E assim foi.

SEXTA-FEIRA


Desta vez acordou quase de imediato ao acender da luz do prédio vizinho. Deitara no sofá de modo que estava de frente para sua própria janela, o que o fez acordar mais rapidamente. Nada foi planejado, pura coincidência. Mas pode perceber melhor a movimentação do novo vizinho. Deitado, viu o vizinho abrir as cortinas e estancar de frente para a janela. Ali permaneceu, o que por si só já era estranho, mas o que se seguiu o deixou apreensivo: vestiu uma camisa branca de botão e, após abotoá-la até o pescoço (olhou para o relógio: 4:05 da manhã. Quem veste camisa abotoada até o pescoço a essas horas?) ergueu o braço esquerdo e o espalmou contra o vidro. Permaneceu ali por quase um minuto, depois afastou-se, cerrou as cortinas e apagou a luz. Ficou ali, a observar a cena, confuso, sem saber o que pensar. E tinha algo naquela figura, algo familiar, que o deixara inquieto. Estranho.


Acordou perto do meio-dia. Ficou pensativo. Duas noites seguidas, a mesma coisa. Abre, fecha, abre, fecha, abre, fecha, abre, atravessa a porta, fecha, abre, fecha, abre, fecha, abre, fecha. Desceu, comprou algumas frutas, legumes e bolachas água-e-sal. Iria fazer uma sopa pra não agredir o estômago, ainda não se sentia completamente recuperado. Uma fruta para sobremesa e algumas bolachas para petisco. Abre, fecha, abre, fecha, abre, fecha, abre, entra, fecha, abre, fecha, abre, fecha, abre. Almoçou, sentiu-se mais disposto. Ainda estava pensativo com o que ocorrera nas noites anteriores. O que estava acontecendo no prédio vizinho? Aquela familiaridade…Gastou algum tempo pensando, pensando…Teve uma ideia. Ficaria de vigília para ver se o fato se repetiria uma vez mais. Mas daquela distância ele não conseguiria ver direito…Precisaria de algo como um binóculos. Melhor! Seu vizinho de baixo tinha uma câmera profissional com bom alcance de zoom. Era isso. Iria descer e pedi-la emprestada para o vizinho, alegando qualquer desculpa. Correu à porta. Ab..Fecha?


A porta estava aberta.


Havia esquecido de trancá-la.


Muito estranho.

SÁBADO


Mal conseguiu dormir direito. Estava ansioso para saber o porquê do comportamento estranho do vizinho. Mas o jeito era esperar, e assim ficou largado no sofá, esperando, esperando…4:02 da manhã, a luz acende. Ótimo. Seguiu-se o mesmo movimento da noite anterior. Luz acesa, cortina se abrindo. Uma única diferença: o sujeito já estava de camisa. O que ele tinha nas mãos agora era um paletó, que ele vestiu demoradamente. Com as luzes apagadas, ele pegou cuidadosamente a câmera emprestada para poder ver mais detalhadamente o que estava acontecendo do outro lado da janela. Ao colocar os olhos no visor da câmera, sentiu o coração quase sair pela boca. Andou de costas, tropeçou e caiu de bunda.

Impossível.

Sou eu!

Mas não poderia ser. Como?…Não, não pode.

Tentou se explicar o que era aquilo. Só poderia ser um parente, um irmão gêmeo…mas era absurdo, como que nunca ouvira falar num irmão gêmeo? Não, não. Essa história estava mal contada. Era uma pegadinha. Sim só poderia ser. É uma pegadinha. Mas quem..como?…Ao acaso? Escutava os pulos do coração como se fosse a bateria da Mocidade. Tentava entender aquilo, mas não conseguia. Tomou a câmera nas mãos novamente, e tornou a observar. Nem gêmeos são tão parecidos. Era realmente ele mesmo. Os cabelos, o rosto, as mãos…a mão esquerda. A mão esquerda espalmada novamente apoiada no vidro. E de repente, como percebesse estar sendo observado, virou o rosto em sua direção. E um sorriso começou a brotar de seu rosto. E foi aumentando, aumentando…até parecer algo desumano, um sorriso extremamente arreganhado, um sorriso com todos os dentes do mundo. E, a seguir, ergueu a mão direita, e começou a bater com o dedo indicador no vidro. A princípio tranquilamente, e depois com uma certa urgência. O que ele está fazendo…Ele está apontando pra mim? Mas o jeito que ele está apontando…tem algo estranho nele. E de repente percebeu um cravo na lapela. O cravo lhe lembrou algo fúnebre… No instante seguinte, o terror lhe invadiu o corpo. Tomou consciência de alguns detalhes. Eram 4:06 da manhã. Apartamento 406.

Quando peguei a câmera foi fecha, abre, fecha, abre, fecha, abre…

A porta está aberta!

Ele não está apontando para mim.

Tem alguém atrás de m—

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