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Agora, esta casa é o meu túmulo.

Já não sei há quantos dias estou neste lugar, só sei que o tempo parece estranho aqui dentro. Cada instante parece durar uma eternidade.

É incrível como você começa a pensar mais na vida quando está prestes a morrer. Quando oxigênio ao seu redor começa a acabar e o ar da morte entra nos pulmões ao invés do próprio gás atmosférico. Estou em contagem regressiva para a morte, mas também em um triste dilema: ou morro compactado feito lixo, ou então terrivelmente sufocado. 

E pensar em como cheguei aqui...


Eu estava à procura de um apartamento novo para morar. Queria sair da casa dos meus pais e adquirir algum tipo de independência, sabe? Por isso procurei por toda a cidade por bons imóveis que tivessem um preço relativamente acessível, tendo em vista que o meu salário não era lá essas coisas. 

Foi nessas idas e vindas que conheci Pietro, um velho que só usou roupas vermelhas nos nossos dois encontros. Se ele tivesse uma barba seria o Papai-Noel com toda a certeza.

Eu o conheci por acaso, bem quando estava pesquisando os preços dos imóveis na cidade. Enquanto eu, parado em frente a um prédio, analisava uma placa de "vende-se", ele chegou sem mais nem menos, já puxando uma conversa:

— Interessado? 

Respondi que ainda não tinha me decidido e perguntei se ele era algum tipo de corretor. Ele disse "quase". Me pergunto o que esse maldito "quase" quis dizer.



— Olha, não sou bem um corretor, como já disse antes, mas tenho exatamente o que você deve estar procurando: conforto e economia. Posso assegurar-lhe de que sairia bem mais em conta se você comprasse de mim ao invés de comprar essa coisa aqui.

"Nunca confie em estranhos" Mamãe sempre disse isso. Aquela placa não tinha nem ao menos o preço a se pagar, mas com certeza seria mais caro que comprar de Pietro, já que a compra por corretoras tem um custo mais elevado.

Antes que pudesse respondê-lo, ele me deu um cartão com seu número de telefone e endereço. Falou que qualquer coisa era só entrar em contato e em seguida foi embora.

Após isso, eu liguei para todas as placas escritas "vende-se" que via pela frente, na esperança de achar o que procurava. Bem, me frustrei.

Todos os preços dos imóveis estavam altos demais, e os que eram acessíveis tinham uma péssima qualidade.

Enquanto voltava para casa no carro que tinha pegado emprestado dos meus pais, eu pensava em como conta-los do ocorrido. Falar que ficaria com eles por mais algum tempo. Mas de repente me veio à cabeça aquele velho estranho, me veio à cabeça uma oportunidade. Eu achava o comportamento dele esquisito, mas o desejo de liberdade falou mais alto. 

Quando cheguei em casa, dei as boas novas à minha família: iria finalmente me mudar.

Foi logo no dia seguinte que entrei em contato com Pietro. Marcamos de nos encontrar naquele endereço que estava no cartão às 13h. De lá mesmo ele me mostraria a "oferta" que tinha proposto antes.

Eu podia até estar desesperado por uma casa própria, mas não burro. Dei o endereço à minha mãe e a avisei para chamar a polícia caso eu não voltasse em no máximo quatro horas.


Estou aguardando a polícia até agora


Cheguei ao local marcado um pouco adiantado (às 12h30min). Era uma área que ficava em um ponto pouco movimentado do centro, mas ainda sim tinha um fluxo considerável de pessoas. O prédio localizava-se bem em frente a uma loja de eletrônicos e ao lado de uma padaria. Era bem longe da casa dos meus pais. Naquele momento achei ótimo.

Mas eu até daria os meus olhos para estar somente na presença deles novamente...

Fiquei esperando a chegada de Pietro enquanto torcia para aquilo ser verdade e não um golpe fajuto. Quando deu a hora, ele chegou. Com seu palitó e calças cor escarlate.

Nos cumprimentamos rapidamente e em seguida fomos ao prédio. Enquanto subíamos as escadas, ele me falava do preço. Confesso que me senti bastante seduzido pelo preço, e a infraestrutura do lugar nem era tão ruim assim.

Quando chegamos ao segundo andar; quarto 408, ele tirou as chaves e abriu a porta, me mostrando o apartamento. Ainda não era mobiliado, e as paredes tinham um branco meio encardido, não chegava a ser cinza, simplesmente um "branco-encardido". O piso parecia ser feito de uma cerâmica azul de qualidade.

Pietro me mostrava cômodo por cômodo, todos seguiam o mesmo princípio: paredes brancas, cerâmica azul. Design monótono e nada inovador, mas tinha uma certa beleza. Ele me dizia que tinha comprado o apartamento a preço de banana, mas achou outro lugar melhor para morar, tornando esse local dispensável e inútil para ele.

Estávamos na cozinha quando um barulho, ou melhor, um tipo de estrondo tomou conta do local. As janelas até começaram a tremer um pouco.

— O que foi isso, Pietro!?

— Foi só o trem. Se você for morar aqui vai ter de se acostumar. Hoje, ele vai passar aqui de novo às 16h em ponto. Talvez você nem note.

— Cara, é impossível não notar isso! O som que ele faz é de ferrar os tímpanos. Sem contar que a casa chacoalha toda, me sinto uma maçã no liquidificador.

Pietro riu da minha comparação.

Foi então que seu maldito telefone tocou.

Ele pediu licença e foi em direção à sala. Passou-se algum tempo e nada de ele voltar. Fui até lá e a única coisa que vi foi o mesmo piso de de cerâmica azul, as mesmas paredes "branco-encardidas" e a porta, claro.

A porta trancada.

Eu logo pensei que tinha caído em algum tipo de golpe, mas isso não fazia sentido. Digo, por que ele simplesmente me deixaria trancado lá dentro sem ao menos ter levado minha carteira? Bem, então talvez ele tivesse trancado a casa por engano ou me pregado uma peça.

Aproximei minha boca à porta e o chamei algumas vezes. Mas não houve respostas.

Resolvi chamar alguém da rua para me ajudar, já que estava sem celular. Isso seria vergonhoso, mas era necessário. Então tive uma surpresa quando me virei para ir à janela.

Não havia mais janelas

Nem janelas, nem portas. Apenas paredes.

Eu comecei a pensar que se aquilo fosse um golpe, era um bem sofisticado. Afinal, quem conseguiria sumir com janelas e portas daquela maneira? Uma gangue de ilusionistas? Nada que eu pensava tinha nexo. Com isso, optei por procurar uma saída. Vasculhei a casa de cima a baixo. Tocava constantemente nas paredes a fim de achar algum tipo de passagem secreta, já que tudo era possível naquela altura.

Eu estava tateando uma delas que eu vi algumas fissuras. Fissuras que não estavam lá antes. A simetria presente entre elas e o modo como se organizavam na superfície as fazia parecer uma espécie de rosto humano com olhos fechados e semblante apático. Era só mais um caso comum de pareidolia.

Era, até que os olhos se abriram.

Meu instinto foi de me afastar imediatamente. Meu coração já estava palpitando naquela hora. À medida em que me afastava, mais fissuras tomavam conta das paredes, do chão e do teto, todas formando horrendos rostos diferentes.

Essa é uma das últimas coisas que me lembro antes de desmaiar.

Quando eu recobrei a consciência, percebi que tinha desmaiado por mais que algumas horas, por dias, eu acho. "A polícia já deveria ter chegado", eu pensava. Assim como pensava que aquelas paredes fossem brancas e não vermelhas como estavam agora. Sem contar que o quarto estava menor, parecia ter encolhido. Não havia mais sinal algum das rachaduras.

Eu já não conseguia me levantar, deve ter sido o modo como caí. Infelizmente esse era apenas um dos meus problemas. A diminuição do oxigênio naquela sala ficava cada vez mais evidente. Eu sentia como se tivesse corrido uma maratona sem sair do lugar. Meu coração parecia explodir a cada batida, e o ar que eu puxava simplesmente não chegava aos pulmões. Respirar tornou-se um desperdício de energia.

Em meio disso, eu notei algo escrito em uma das paredes vermelhas.



"Mestre, aqui jaz a carne que saciará tua fome, o sangue que irá suprir a tua sede"

Aquilo não fazia sentido, mas nada fazia sentido naquele lugar, nada 

mais importava. 

Nada mais importa.

Eu notei que as paredes e o teto se aproximam cada vez mais de mim. Serei prensado feito lixo em pouco tempo. Eu não quero morrer, a morte não é para mim. Por que a polícia não chegou até hoje?

E todo esse vermelho vivo vindo em minha direção me deixa cada vez mais desconfortável e aflito. Eu tenho cada vez menos espaço, e o pouco ar que sobrou está abafado e denso. Meu fôlego se esvai continuamente, em ritmo incontrolável, enquanto meu coração acelera mais e mais. Por que a polícia não vem logo, droga!? Senão essas paredes ficaram ainda mais vermelhas, vermelhas de sangue.

Agora as rachaduras apareceram novamente. Isso não é nada bom.

Tudo está tão apertado. O ruído dos meus ossos se quebrando é tão irritante. Mas o som da morte iminente irrita mais ainda.

Como se não bastasse, um outro barulho de ferrar os tímpanos está empesteando este local, sem contar que tudo está tremendo. Espere. Eu conheço isso.

É o trem.

Ele passaria por aqui às quatro em ponto. É provável que eu só esteja aqui há três horas. Isso explica porquê a polícia não chegou até agora. 

Tudo está ficando tão escuro. Já não sinto o meu corpo.

Acho que agora a morte é certa.

Ou não.

As coisas estão mais sem nexo do que nunca. Logo há pouco estava à beira da morte, mas nesse exato momento há um desconhecido bem em minha frente. Parece meio atordoado. 

É tão estranho estar nesse estado que estou: sem poder falar ou me mover, apenas observar e sentir. Sentir dor. 

Acho que ele procura por uma saída. Mas não existem saídas. 

Logo ele será como nós: almas seladas em fissuras, servindo de oferenda para um demônio qualquer.

Logo nós dividiremos este túmulo.

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