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Rostos na Tempestade

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Acho que vou ficar louco…

Já faz vinte e oito dias desde dezessete de Dezembro, e a chuva não diminuiu por um único segundo. Continua caindo pesada, descendo do céu como uma cachoeira. Lá fora, você sente como se fosse se afogar andando.

Quando tudo começou, eu não sabia se as pessoas ligavam muito para isso. Quero dizer, esse pesadelo parecia apenas mais uma tempestade de inverno. Tudo começou em um local estranho, no Atlântico Norte, em frente ao Golfo de São Lourenço, mas acho que isso não significava muita coisa para as pessoas que não eram meteorologistas ou oceanógrafos. A tempestade começou a se expandir rapidamente. Não tenho certeza se ainda continua crescendo, já que a TV parou de funcionar três semanas atrás, mas tenho certeza que ela continua no mesmo lugar.

As coisas começaram a ficar mais bizarras quando o vento não conseguiu deslocar a tempestade. Ela continuava crescendo para a Nova Inglaterra, se espalhando pela costa para o Maine e atingindo o Condado de Nassau, que é o local onde vivo. O boletim do tempo mudava em poucos minutos, com os meteorologistas prevendo trovões, ou alguns centímetros de neve, ou uma grande nevasca e que todos deveriam permanecer em casa.

Porém, a minha esposa, Sara, não poderia dar atenção aos avisos. Ela tinha que trabalhar, enquanto eu ficaria em casa cuidando da nossa filhinha de cinco anos, Tanya. Quando a minha mulher saiu de casa naquela manhã, eu a prometi que manteria Tanya em segurança. Enquanto observava Sara manobrando para sair da garagem, eu não imaginava que seria a ultima vez que a estava vendo.

Enquanto o dia passava, a tempestade piorava. Parecia que os meteorologistas estavam certos, prevendo uma das piores tempestades. Fiquei surpreso por ainda ter energia até a noite, disso eu não tinha que reclamar. Você nunca sabe como é ruim um blackout quando se tem uma filha de cinco anos que teme o escuro.

A última vez que vimos a previsão do tempo na TV, eles disseram que a tempestade havia se espalhado para o sul de Nova Jersey, e que poderíamos esperar sessenta centímetros de neve durante a noite. Acho que já eram quase 18:23. Alguns minutos depois o canal da previsão do tempo saiu do ar, e todos os outros canais mudaram para um aviso mandando que todos saíssem de Nova York através de qualquer ponte que pudessem passar e evitassem Manhattan.

Tentei ligar para o trabalho de Sara, mas o telefone não funcionava. Eu ainda não sabia o que estava acontecendo, mas resolvi atender aos avisos na TV e tirar a minha filha da cidade. Lutei contra a ideia de abandonar Sara, que trabalhava em Manhattan, mas quando sai de casa, percebi que não poderia me arriscar indo até lá. Era a vida da minha filha que eu deveria proteger no momento.

Ao sul, no horizonte, as nuvens escuras da noite estavam pintadas com um vermelho em chamas.

O trafego estava horrível. Muitas pessoas estavam relutantes em partir. Todos pareciam estar em choque. Dirigi pelas estradas entre Nassau e Queens, vendo várias pessoas em pé na beira da estrada assistindo as sombras das chamas tremeluzentes contra o céu. Algumas pessoas seguiam lentamente á pé para fora da cidade, e com o passar do tempo, o trafego começou a piorar, mas de alguma forma consegui sair de Nova York antes que ficasse preso por lá.

Ainda me lembro de olhar através do porto no caminho de Queens para o continente, e ver toda a Manhattan em chamas. Acho que nunca esquecerei isso. Tanya olhava pela janela, em silencio, e cansada também. Eu não sei muito bem a que horas foi isso, mas acho que já tinha passado das 23:00.

Dirigi a noite toda pelo campo, tentando achar uma estação de rádio que pudesse me dizer o que estava acontecendo. Não encontrei nada, exceto noticias do mandato de evacuação de Nova York. Eu achava estranho ter visto poucos policiais e nenhum soldado para orientar a população. Agora, pensando naquele momento, acho que já estavam todos em outro lugar, ou mortos.

No dia seguinte as coisas estavam piores. O tempo começou a esquentar, e a neve a virar chuva. Pilhas de neve na beira da estrada estavam derretendo, e o asfalto estava coberto de água e lama. As nuvens continuavam escurecendo enquanto o dia passava, e o trafego começava a ficar agitado, com pessoas vindo do litoral da Nova Inglaterra. A ordem de evacuação do rádio já estava sendo transmitida para todos de Massachusetts a Nova Jersey.

Quando a noite caiu, já estava bem difícil diferenciar a noite do dia. Tanya começou a perguntar pela mãe, então tive que mentir e dizer que Sara estava em um local seguro. Na verdade, eu estava mentindo para mim também. Pensei que ela pudesse estar em alguma estrada, segura em seu carro. Agora não tenho duvidas de que ela já estava morta.

Logo tivemos que sair da estrada e dormir dentro do carro. Havia uns sons estranhos na noite escura ao nosso redor, e a minha filha continuava acordada, com medo que o monstro que ela acreditava estar vivendo embaixo da cama dela em Nassau estivesse ali conosco, vivendo embaixo do carro. Eu disse para ela que era apenas imaginação, mas não pude deixar de perceber algo arranhando embaixo do carro, ou um baixo grunhido vindo de algum lugar na noite escura.

Pela manhã, tudo parecia normal outra vez. Isto é, até cairmos na estrada novamente. Eu queria acreditar que os sons que ouvi na noite passada, e a sensação sempre presente de algo no escuro fossem apenas coisa da minha mente, mas o que vi pelas bordas da estrada varreu essa agradável ideia da minha cabeça. Por todos os lugares havia carros ainda parados na beira da estrada, com as janelas quebradas, e as portas arrancadas. Na frente de alguns carros, marcas de algo que foi arrastado na neve para a distância.

Nada me faria sair do carro naquela noite. Ao invés disso, escolhi encontrar uma casa vazia e... arromba-la. Para ser sincero, bati na porta, ela estalou e abriu sozinha. Não havia ninguém dentro, então decidi que passaríamos a noite ali. Consegui deixar a porta bem fechada e firme, e parecia que estávamos em segurança.

Ficamos na casa desde então.

No inicio ficamos no andar de cima da casa, porém, como o dia e a noite se juntaram em uma grande massa escura, decidimos que o porão seria mais seguro. Poucos minutos depois de descermos para o porão, ouvi algo destruindo a porta da frente, tropeçando na mesa e derrubando a televisão.

O tempo passava lentamente. A temperatura continuava esquentando, até parecer que estávamos em pleno verão. Então chegou uma noite em que (acho até impossível de acreditar) parecia que estávamos dentro de um grande forno.

Eu estava quase derretendo. Um pouco de água começou a passar pela janelinha do porão e nós tivemos que nos afastar para não nos queimarmos na água fervendo.

Essa foi a noite em que vi algo que desejava não ter visto.

Minha filha foi dormir cedo. Ela estava cansada, e acho que um pouco doente. Deixei-a dormindo sozinha por um tempo para que eu pudesse dar uma olhada lá fora por alguma das janelas em que não estivesse passando água.

De primeira não vi nada, apenas a escuridão da tempestade. Então, percebi algo lá fora. Umas manchas verdes luminosas, vindas de alguma coisa que eu não conseguia enxergar. Fiquei observando por um tempo enquanto as luzes saltavam pela escuridão.

Logo vieram os clarões dos relâmpagos, e pude finalmente enxergar de onde vinham as luzes verdes.

Era algo grande, algo que eu nunca poderia imaginar. Grande como uma montanha. Ainda estava muito longe, mas eu conseguia perceber claramente que não era algo normal, mesmo na versão distorcida da realidade alternativa que veio junto com a tempestade. Eu podia sentir o calor vindo da coisa, e passando pela janela. Da direção de onde a coisa vinha eu podia ver as chamas devorando a floresta ao sul de Nova York, jogando uma trilha de fumaça negra para o céu escuro.

Os relâmpagos pararam, mas as luzes verdes continuaram. Fiquei observando por mais alguns minutos antes de voltar para Tanya, com aquelas imagens que ficariam cravadas em minha mente para sempre.

No dia seguinte o tempo tinha voltado a esfriar. Os dias foram passando e a temperatura caindo ainda mais, assim como o nosso estoque de comida.

Os donos da casa tinham uma reserva de comida para algumas semanas no porão. Aparentemente, eram fazendeiros que costumavam manter a velha tradição de armazenar o que produziam.

A comida durou mais do que pensávamos, mas agora não temos nada. Acho que teremos de sair daqui. Se o carro funcionar, vamos seguir. Se não funcionar… vamos bolar alguma coisa.

Tem água por todo lugar, e já está quase na altura dos joelhos na terra plana. A terra já saturou e não consegue drenar a água. Não sei o que vai acontecer se continuar chovendo; acho que essa parte de Nova York vai se juntar ao Oceano.

Estou começando a achar que talvez possamos encontrar segurança em algum lugar. Tem que haver algum lugar que a tempestade não atingiu. Estou deixando essas anotações aqui, caso alguém acabe encontrando. Eu só quero deixar alguma lembrança minha, de Tanya, e Sara nesse mundo. Não quero que sejamos apenas mais três rostos na tempestade.


Créditos: Creepypasta Brasil Blog

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