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Otimista do jeito que eu era, gostaria muito de começar isso dizendo que tudo em minha vida estava bem até gradativamente me enlouquecer. Até porque eu acredito ser esse o paradigma de toda transição paranoica. Paradigma de transição paranoica. Eu gosto do jeito que isso soa, acho que fui eu mesmo quem criou esse nome que não passa de um eufemismo que resume a vida. Quando sua vida está boa você sabe que ela vai ficar de cabeça pra baixo num piscar de olhos, não importa de que jeito. Seja com uma desventura das grandes ou com um acontecimento que, no final das contas, nem você mesmo entendeu; mas você sente que sua vida mudou. E não mudou pra melhor. Paradigma de transição paranoica.

Tudo isso envolve o meu paradigma de transição paranoica. Os livros pelos quais meus olhos verdes passearam, estudando cada palavra. Os filmes que eu assisti. Os passos que dei desde meu primeiro ano de idade. As bocas que eu beijei. As portas que chutei. Todas as minhas ações.

Eu não te culpo se isso te fizer sentir dor de cabeça ou te deixar mais confuso do que você já é, ainda acharei pouco. Porque por mais confuso que você fique, ainda será considerado são perto do que eu, Ronald Pombo, sou hoje.

Veja que isso deixou consequências. Eu nunca fui chamado de Ronald Pombo. Antes, eu era só o Ronald. O Ronald normal. E eu tenho muitas saudades de ser o Ronald normal. Depois desse meu paradigma de transição paranoica, Ronald Pombo nasceu e é ele quem eu sou agora. Ronald normal morreu, porque Ronald ficou muito longe de ser normal depois disso.

A propósito, eu acho esse negócio de "paradigma de transição paranoica" ridículo. Quem foi que disse essa besteira? Parece um trecho tirado de um livro bêbado do Freud.

Mas não quero tomar mais do seu tempo, eu vou direto ao assunto.

Há duas semanas que eu não sonhava com mais nada a não ser pombos. Não eram bem sonhos, se fossem sonhos fariam eu me sentir bem, e se tem uma coisa que eu não me sentia tendo pesadelos com dois pombos furando o peito de uma pomba da paz com o bico e, depois disso, arrancando-a a cabeça com a força de uma mordida, essa coisa era bem.

Detalhadamente, o sonho consistia num cenário pós-apocalíptico, com o solo seco e o céu roxo, relampeando. A pomba branca sempre estava no chão. Suas asas abertas, asas estas que ela batia constantemente na tentativa de levantar voo, mas nunca obtinha sucesso nisso. Suas asas estavam quebradas. Aí é que tudo piorava. Chegavam dois pombos comuns (os biólogos chamam-no de "pombo-das-rochas") e, aparentemente sem motivo algum, começavam a bicar ininterruptamente o peito da pomba da paz. O sangue corria para fora dos pequenos buracos formados em seu peito. A pomba branca definitivamente sentia dor, mas ela agonizava em absoluto silêncio. Essa era a pior parte. Ela batia suas asas quebradas em desespero, o que provavelmente a fazia sentir mais dor. Os dois pombos feios, bicando-a sem parar, e ela nada fazia...

Então, um dos pombos se aproxima do pescoço dela em meio a pulinhos e, sem hesitar, arranca-lhe o pescoço com uma mordida. O sangue jorra do pescoço da pobre pomba branca como um chafariz enquanto o nojento do pombo que deu a ela esse fim terrível ergue a sua cabeça com a cabeça da pomba em sua boca, como se fosse um troféu. O outro pombo poderia ter o mínimo de consciência e parar de bicar o peito da já morta pomba, mas nem isso ele fazia.

Por duas semanas eu tive esse mesmo pesadelo. Por duas semanas eu acordava no meio da madrugada assustado e suando frio, depois ia para a escola mas não prestava mais atenção em nada por estar ocupando a cabeça relembrando involuntariamente desse terrível pesadelo. O tempo todo. Nem quando aquela quatro-olhos gostosa cujo o nome eu nunca soube vinha pedir algum material emprestado e se agachava na minha mesa deixando quase 100% à mostra vocês sabem bem o quê me animava mais. Eu só pensava nos pombos. Os pombos cinzas e feios, bem esses que a humanidade evita, maltratando brutalmente aquela pombinha branca da paz que não podia fazer nada além de agonizar em silêncio, batendo suas asas quebradas freneticamente.

A escola, inclusive, tinha se tornado um verdadeiro inferno, desde que eu não conseguia mais me concentrar em absolutamente nada. Outra vez eu me encontrava em uma prova de biologia de múltipla escolha, com a certeza de que não tinha certeza de nada do que estava escrito naquela folha. Eu não sabia nenhuma das respostas. Já achava um milagre eu conseguir lembrar meu nome pra escrevê-lo ao lado do espaço onde dizia "Aluno:". Aquele pesadelo estava definitivamente me deixando mal. Mexendo comigo.

Tudo o que eu conseguia fazer era encarar a folha e bater o lápis levemente na minha cabeça, obrigando as respostas que não estavam ali dentro a saírem.

A professora avisa a sala que dentro de cinco minutos todas as provas deverão estar na mesa dela.

Eu me vejo perdido, não queria entregar outra prova em branco. Não mesmo.

"Merda..."

Sentado na última cadeira da fileira da janela, eu olho por ela para observar o céu. Não tinha muito o que eu pudesse fazer.

A vista da janela dava para o estacionamento da escola. Os carros dos professores todos ali, cada um em uma vaga, com apenas uma pequena coisa fora do comum...

Quase não acreditei que estava realmente vendo aquilo. Cheguei a pensar que já tivesse sonhado tanto com esses animais malditos que eles estavam interferindo na minha realidade.

Ao lado de um carro branco, eu vi uma pessoa. Uma pessoa com uma estatura normal, tênis preto, calça jeans e um casaco preto daqueles de capuz com o zíper branco. A pessoa só ficava lá, parada, olhando direta e fixamente pra mim, com a sua cabeça de pombo.

Isso mesmo, cabeça de pombo.

Eu não sabia bem se aquela coisa no estacionamento era homem ou mulher porque tinha uma cabeça de POMBO.

E a cabeça de pombo tinha um canetão azul na mão, desses de usar em quadro branco.

De repente, a coisa começa a escrever um monte de letras aleatórias na lataria do carro branco:

C B A E A D E B E C.

Depois de parar de se inclinar sobre o carro, a cabeça de pombo volta a me encarar do estacionamento. Imóvel. Eu? Sem entender uma coisa.

Uns vinte e cinco segundos depois de olhar fixo grotesco, a cabeça de pombo volta a escrever na lataria do carro branco:

R E S P O S T A S.

Eu estava pasmo. Achava que aquilo era uma pegadinha. Só podia ser.

A minha cabeça brilhante achou que seria uma boa ideia perguntar o que era aquilo.

"Isso é sério?" Sussurrei à cabeça.

Me senti ridículo. A coisa simplesmente não poderia me ouvir sussurrando, estava à uns 20 metros de mim.

Mas, fazendo um aceno positivo com a cabeça, a coisa me surpreendeu. A cabeça de pombo realmente tinha ouvido a minha pergunta. Eu estava chocado, se quer saber.

Não tinha certeza se realmente deveria depositar minha confiança numa cabeça de pombo num corpo humano escrevendo coisas na lataria de um carro no meio do estacionamento da escola, mas meu psicológico já estava todo fodido por conta do sonho, eu fiz o que tinha que ser feito.

Em menos de um minuto marquei todas as alternativas da prova, seguindo as que a cabeça de pombo tinha me indicado. Entreguei a prova para a professora e voltei ao meu lugar.

Porém, antes que eu pudesse dar uma piscadela para a cabeça de pombo (por mais estranho que isso possa parecer), ela já não estava mais no estacionamento.

-Dunehyll.

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