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Entre as dores que este mundo conhece, reina soberana a dor do luto. E dentre os lutos o Rei mais cruel é o luto de um filho perdido. Essa é a curta história de meu querido Ibrahim e de como sua rápida passagem por este mundo abriu o caminho por onde o Rei das Dores entrou em minha vida. Não escrevo para convencer ninguém, pois nem mesmo posso dizer que tenho certeza dos fatos. Escrevo para minha própria sanidade, para me convencer de que nada do que eu pudesse fazer alteraria o que aconteceu. De que mesmo que quisesse não poderia alterar o destino daquele que era o sorriso de meu coração.

Ibrahim era uma criança doce, com menos de um ano de idade. Começava interpretar o mundo que o cercava e a aprender como  mesmo seu balbuciar exercia um poder magnético sobre um pai superprotetor. Em breve estaria articulando suas primeiras palavras. Quais seriam, não sei afirmar, tenho apenas a certeza de que "mamãe" não faria parte de seu repertório precoce, pois minha amada Laura morreu de complicações no parto deixando pra traz um bebê de cinquenta centímetros e uma saudade sem tamanho.

A vida não era fácil nem alegre, mas éramos uma família. Sendo sincero, não saberia dizer quem chegou primeiro, se meus sonhos perturbados ou o estranho em nossa rua. Era quase como se ele fosse a parte do pesadelo que escolhia a luz do dia. Se por um lado seus hábitos estranhos e grotescos me causavam assombro e repulsa, por outro sua educação e gentileza em nada denunciava a perversão de sua natureza. Seus horários erráticos, os sons que vinham de seu apartamento, os estranhos odores que emanavam de suas roupas e as madrugadas que passava em claro falando em voz alta não me afetariam, não fosse o detalhe dele ter se mudado para a casa logo ao lado da minha. Havia apenas uma fina parede de gesso e tijolos separando seu repulsivo mundo do meu quotidiano.

De tudo que citei, as vozes eram o que mais me perturbava, pois nas madrugadas sombrias e geladas do inverno, quando mesmo o mais racional dos homens pensa duas vezes antes de levantar da cama, era possível ouvir de meu quarto os sons e resmungos que atravessavam a parede. O ritmo de sua ladainha evocavam em minha memória os cânticos religiosos que ecoavam da pequena igreja que se localizava no fim da rua, há anos largada à própria ruína, coberta de heras que invadiram seu interior através dos vitrais quebrados. Mas que tipo de cântico seria aquele, mesmo nas noites mais silenciosas, quando era possível ouvir o lamento dos gatos há quadras de distância, não conseguia distinguir as palavras evocadas por aquele estranho solitário. Os sons, totalmente alienígenas a meus ouvidos, soavam como alguma língua morta, entrecortados por uivos que me faziam implorar para que o sono me arrebatasse, me envolvendo em seu abençoado esquecimento. Temia mais ainda, que tamanha exaltação despertasse e assustasse meu pequeno Ibrahim, mas curiosamente seu sono parecia se tornar mais pesado do que o de costume, e ele atravessava as noites dormindo profundamente.

Estes episódios noturnos eram raros de início, mas foram se tornando mais e mais constantes com o tempo, seguidos por dias em que, descorfortavelmente, o novo vizinho tentava se aproximar de nós. Primeiro com acenos, forçando uma intimidade que nunca existiu, e olhares e sorrisos típicos dos ladrões. Logo surgiram as batidas na porta, que anunciavam visitas não solicitadas, quando pedia ou devolvia ferramentas que obviamente nunca eram usadas. Quanto mais gentil ele se mostrava, mais minha intuição sussurava desesperadamente para dele me afastar.

Como disse, não sei se o vizinho surgiu em nossas vidas antes dos pesadelos, ou se estes foram o tapete vermelho que o conduziu até nós. Depois de horas de trabalho, chegava exausto em casa, atendia às necessidades de Ibrahim, dispensava a velha senhora que passava o dia cuidando dele e, após uma parca refeição, buscava a cama como um homem busca o conforto de sua amante, e então o suplício tinha início. A princípio imaginei que as preocupações do dia a dia, os receios que todo pai solitário tem em relação ao futuro do filho, fossem a causa, mas a cada noite os pesadelos se tornavam mais virulentos, se intercalando com horas de insônia regadas à uma ansiedade como jamais havia sentido. Logo minha aparência começou a refletir essas noites inquietas. Perdi peso, olheiras se afundaram em meu rosto.

Nos poucos momentos de sono que tinha, minha consciência parecia ser arrancada de mim. Eu me via em alguma rua, de pé, olhando para cima apenas para ver o céu ser rasgado como uma gigantesca ferida de onde sangravam anjos sem face e pássaros sem pele. Além do rasgo algo aguardava, algo grande e antigo, algo cuja paciência só era excedida por sua raiva, uma raiva direcionada a tudo o que respira e que podia ser sentida como ondas de calor. Neste momento percebia que Ibrahim estava em meus braços, seu choro me despertava da letargia em que me encontrava, e então eu via um dos anjos vindo em nossa direção. Sem que tivesse tempo ou forças para reagir, o anjo arrancava meu filho de meus braços e o levava embora.

Tais pesadelos intensos fizeram do sono algo detestável e do descanso uma raridade. Sem dormir, passava as noites escutando de forma obcecada a voz incompreensível de meu vizinho. Me lembro de certa noite, quando o céu parecia querer lavar a terra de tudo que fosse impuro com uma tempestade violenta. Estava preocupado com a possibilidade dos relâmpagos perturbarem o sono de Ibrahim, mas ele dormia pesadamente. Percebi, abafadas pelo som da água que caia, aquelas palavras que se pareciam com lamentos, e encostei um dos ouvidos na parede na tentativa de escutar seus cânticos de horror. De início me assustei, pois sua ladainha parecia estar sendo respondida por outra voz, mais estridente, algo que parecia um choro. Quem em sã consciência teria saído de casa para um visita àquela hora, com aquele tempo? Talvez aquilo que eu estivesse ouvindo fosse o pedido de ajuda de alguém, ou pior! Me lembrei da maneira que olhava e acenava para mim quando tinha Ibrahim nos braços. Aquela alma torpe poderia ter levado uma criança para sua casa? Senti o pânico brotar dentro de mim, esquentando minha nuca e fazendo uma camada de suor frio umedecer e grudar minha camisa em minhas costas. Não sei dizer exatamente em que momento aquele som se tornou claro para mim e percebi que não se tratava de uma voz humana mas sim do berrar choroso de um animal. Minha perturbação era tanta que meu corpo tremia. No dia seguinte um mal cheiro pungente me fez ficar afastado da lixeira comunitária, mas a velha babá comentou comigo, que acharam uma carcaça sem cabeça de um animal que não conseguiu reconhecer, talvez um cachorro grande. Todos estavam de olho sobre os jovens da vizinhança, tentando descobrir que garoto sádico teria feito aquilo. Mas eu sabia que aquilo não era o resultado de uma rebeldia juvenil. Foi naquele dia que dispensei a velha e liguei para a fábrica, avisando que me sentia mal e um médico havia me dado uma dispensa de alguns dias. Não iria deixar Ibrahim longe de meus olhos por um segundo sequer.

Os acontecimento que se seguiram então são os que mais maltratam minha memória. Não apenas porque, pelas razões que vou contar, minhas capacidades mentais foram abaladas, mas também porque meu sofrimento pessoal ao narrá-la é tão agudo que minha vontade falha, minha mente vacila e minha mão treme.

Na noite seguinte o céu estava claro. Estava sentado em minha cama, olhava para a velha cômoda de madeira, que continha o porta retratos com a única foto que ainda tinha de Laura. Pensava em esvaziar as roupas das gavetas e partir. Não sabia para onde, ou se seria possível. Minha mente traçava planos desvairados, alucinados, ela queria apenas fugir. Apenas eu e minha criança. Mas meus pensamentos foram interrompidos pela voz abafada vinda da parede que a tanto tempo eu aprendera a reconhecer. A voz que antes me causava temor mas que agora me enchia de raiva. Por causa daquela voz eu estava planejando fugir da casa onde convivi com minha amada até sua morte, a única evidência de sua existência além da foto em minha cômoda e da dor de minhas memórias.

Mas desta vez algo estava diferente. Não ouvi gritos de animal algum. Em vez disso aquela voz sinistra parecia estar acompanhada de outras, um coral diabólico que tornava atraente a ideia da surdês. Havia um sino tocando tão alto que por um momento pensei no campanário da velha igreja em ruínas. Aquele badalo metálico parecia soar dentro de meu quarto. Não! De dentro de minha cabeça. Foi então que Ibrahim despertou, e começou a chorar. Aquilo adicionou desespero à minha raiva. Até então meu pequeno parecia dormir, ignorando a perversidade que se instalara do outro lado da parede, mas desta vez ele estava assustado. As vozes e o sino, unidas ao choro de meu filho, fizeram a sanidade, ou ao menos meu bom senso, se evaporar. Pensei em chamar as autoridades, falaria para a polícia da carcaça do animal, se precisasse mentiria. Qualquer coisa para fazer aquilo parar. Foi então que um clarão rasgou o céu e me cegou momentaneamente. O rugido do trovão que se seguiu fez os vidros da janela tremerem com tanta violência que pensei que fossem se estilhaçar. As luzes morreram, não apenas do meu quarto ou da minha casa, mas o mundo lá fora se tornou escuro. O som da água, caindo furiosa do céu, não era o suficiente para encobrir o som daquele maldito sino, ou do choro de meu bebê, que berrava a plenos pulmões. Por um instante o choro de Ibrahim se tornou indistinguível do choro do animal na noite anterior em minha mente. Tomado por um impulso que não consigo por em palavras e um misto de ódio e pavor restou-me a coragem e imprudência de tomar satisfação diretamente com o estranho vizinho.

Com meu filho chorando inconsolado em meu colo desci os degraus estreitos da pequena escada que ligava o pavimento térreo ao segundo andar de nossa casa e parti para a soleira do maldito. Bati com força na porta da frente. Olhando ao redor, em busca de mais alguém incomodado com aquele absurdo, me senti a pessoa mais solitária do mundo. Naquele instante soube o que era ser literalmente abandonado pelo humanidade, pois olhando ao redor, todos pareciam estar dormindo em suas casa. As janelas escuras, os moradores embalados por um sono incapaz de ser perturbado por aquela insanidade. Puro desespero voltou a inundar minha mente esmurrei a porta com violência redobrada. Neste momento o cântico parou subitamente. Eu ouvia apenas o choro de Ibrahim e o som da chuva, que parecia ter diminuído igualmente de repente e se tornado mais fina e mais fraca.

Nos minutos seguintes quando ouvi os passos se aproximando da porta meu instinto me implorou que eu fugisse dali e levasse Ibrahim pra longe. Uma enorme bola fria de desconforto cresceu em meu estômago e eu me virei para correr, mas antes disso a porta se abriu e, com o mesmo sorriso perturbador de sempre, o vizinho nos recebeu em silêncio, vestindo um manto negro e segurando uma vela que meu coração dizia não estar lá por causa da falta de energia. Com as pernas bambas sentia meu coração prestes a explodir com cada nova batida. Tentei pensar em algo para dizer, mas não tive tempo. Ouvi os passos que se aproximava por trás quando era tarde demais, enquanto uma mão forte apertava um trapo embebido com algum tipo de droga contra minha boca e meu nariz, senti mãos estranhas retirando Ibrahim de meus braços.

- Ol G'NAY zodaneta gah IALPR-GH AZAZZEL
Estas palavras incômodas me tiraram das trevas em que havia sido lançado e me devolveram a consciência. Agora eu me via no cômodo onde o maldito passava as noites entoado suas blasfêmias, e, as ouvindo claramente, elas se tornaram ainda mais incompreensíveis. Tentei me erguer e não consegui, por instantes pensei que o torpor do qual despertava estava inutilizando meus membros, mas então vi as cordas que me prendiam àquela cadeira de madeira. O narcótico que me roubara a consciência ainda circulava por meu corpo, confundindo minha mente e turvando minha visão, mesmo assim a cena que presenciei até hoje amarga minha alma.



No centro daquela sala um altar trapezoidal de pedra negra e polida se erguia, e inconsciente sobre ele meu filho dormia. Por instantes acreditei que seu destino tivesse sido o mesmo do animal cuja carcaça foi encontrada no lixo, e sabendo o que sei hoje, muitas vezes imagino que tal destino, talvez houvesse sido mais gentil do que o que se seguiu.

O Altar estava cercado por homens e mulheres, a pouca luz bruxuleante que iluminava o local provinha de velas acesas, enormes como o braço de um homem adulto. Algumas das pessoas estavam nuas, o reflexo avermelhado de sua pele exposta sugeria que não era apenas suor que as recobriam.

Ao fundo uma vela negra, mais alta do que as outras, porém muito mais fina, ardia, ao seu lado outra vela, esta branca, coberta de garatujas incompreensíveis, e, entre as duas, a cabeça decepada de um bode. Parte da pele havia sido removida, expondo o osso branco, mas os olhos ainda estavam lá e os chifres grandes e retorcidos apontavam para o teto. Na parede, por trás desta cena grotesca, um símbolo tão horrível que minha mente, piedosamente, limpou de minha memória. O vizinho segurava uma faca em uma das mãos, erguida a poucos centímetros da garganta de meu filho. Senti meus olhos se embaçando com as lágrimas que saiam, tentei berrar ASSASSINOS. Senti minha vitalidade escapar de mim como uma onda elétrica que deixava meu corpo. Então o pequeno peito da minha criança se ergueu e tornou a baixar. Ibrahim respirava. Estava vivo.

- Eis o sangue inocente. Ele veio até nós por livre vontade, como foi prometido. Uma vida como preço por todas. Que seu retorno seja atrasado. Levem a criança ao Rei das Dores e poupem o mundo de sua presença. Que até o próximo Esgarth possamos viver livres de seu olhar.

Foi então que, de onde o símbolo macabro nos observava, uma ferida surgiu na pele da realidade. Daquele rasgo um hálito gelado nos envolveu. Um frio tal que fazia meus ossos entorpecidos doerem, como se o lugar de onde vinha jamais houvesse conhecido o calor de uma estrela. E de dentro daquela aberração refulgia uma brilhante escuridão. Um negrume que nada revelava de seu interior mas que de alguma forma ofuscava e maltratava a vista como o brilho de mil sóis

O maldito sacerdote continuou:

-Niisa vovim SIAION-YOLTH'CAN ANANNEL...
Da chaga na realidade, como um verme que habita a carne, saiu então um anjo sem face. Uma criatura que parecia ser composta de ossos e pele e cujo o ritmo dos movimentos seguia o exemplo das aranhas intercalando rapidez e imobilidade. O canto se intensificou, e as vozes dos presentes passaram a reverberar em uníssono. A criatura sem rosto virou sua cabeça para mim e pareceu gritar ainda que não tivesse boca. As coisas que brotavam de suas costas como assas se agitaram e meus ouvidos se encheram de dor. Senti o gosto quente do sangue invadir minha boca quando mordi a língua, algo úmido começou a escorrer por minhas bochechas enquanto todos os sons morriam para mim, apenas o grito reverberava dentro de minha mente. Nunca mais escutaria nada e sentia um punho se fechando ao redor de meu coração.



Uma das mulheres presentes se ergueu, apanhou meu filho nos braços, os seios nús brilhantes tocando suavemente as pequenas bochechas. A criatura estava agora com a cabeça grotesca virada para meu bebê, mas seu urro silencioso ainda explodia dentro de minha cabeça. Sem acordar, Ibrahim foi dado a criatura que entre espasmos o levou para dentro daquele rasgo dimensional que em seguida se fechou. Minha consciência misericordiosamente se evaporou, e fui atirado novamente para as trevas.

Despertei sozinho no chão daquele cômodo na manhã seguinte. Senti um inchaço dentro da boca e percebi que quase decepara a língua com os próprios dentes, a dor tomava conta de meu corpo e eu ainda estava, como estou até hoje, completamente surdo. O sangue seco que brotara de meus tímpanos formava pequenas crostas na barba que começava a crescer. Ainda sentia o efeito do narcótico em meu corpo. Quando tentei me levantar percebi um papel em minhas mãos. Ao desdobrá-lo a tristeza e o desespero me invadiram. Minha língua inchada me impedia de soluçar, a sentia quase solta dentro da boca. Me engasguei e tossi. Quando pude controlar os nervos novamente olhei para o papel e reconheci a mesma caligrafia maldita que acompanhava as ferramentas sem uso, em pequenos bilhetes de agradecimento. A letra miúda dizia:

"Se você pudesse salvar milhões de vidas em troca de apenas uma, o que faria? Coloque-se em meu lugar e tente não me odiar mais do que o necessário."
Até hoje não me atrevi a responder àquela pergunta, mas outra, talvez mais cruel, sempre surge em minha mente quando penso em respondê-la: De que vale o mundo sem a companhia daqueles a quem um dia se amou?



Autoria: Tamosauskas

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