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Por: Laura Costa, a quem devo meu conhecimento literário.

" Não sei porque as pessoas desenvolvem um medo peculiar dos mortos. Me preocupo com os vivos." - L. C.

Era mais um fim de tarde alaranjado na “Cidade Maravilhosa”, Rio de Janeiro. O sol quente e o clima abafado passavam pelas paredes do pequeno e aconchegante Kitnet. Ouvia-se o rangido do velho ventilador de teto e um assoviar suave e delicado de uma mulher fazendo o que amava: Pintar. Com uma tela posta em um cavalete e um pincel nas mãos.

Por mais que parecesse inofensivo, tal Kitnet perturbava ás vezes. Havia algo no chão branco impecável, nas facas perfeitamente organizadas na cozinha, na organização exagerada. Algo que, necessariamente importunava qualquer um.

 Joaquim estava na sala, assistindo TV e esperando pelo jantar. Por um minuto, esqueceu-se de “Doug” que passava na televisão e olhou para a mãe, distraída, e como ficava mais bonita do que já era quando pintava. Joaquim amava cada centímetro da mãe, era linda, delicada, cheirosa... Ah, seu cheiro! Joaquim adorava pegar as roupas da mãe no armário e cheira-las quando ela não estava vendo... Seu único problema é que era muito ocupada. Vivia trabalhando, e quando raramente tinha tempo livre, ficava em frente á tela.

A mãe era, além de tudo, uma cozinheira de mão cheia. O movimento que ela fazia quando picava os alimentos era leve, gracioso. Um dia, ao cortar a carne para fazer Strogonoff, ela acabo se distraindo e cortando a ponta do dedo. O sangue logo saltou, escorrendo até os pulsos. Joaquim olhou, atento. Aquele sangue vermelho-cereja parecia tão... ,Atraente, convidativo. 

Tentou se concentrar no desenho, mas havia um som, vindo da cozinha, do micro-ondas que apitava sem parar. De repente ouviu-se um copo se espatifando no chão, e uma gaveta sendo escancarada. As cortinas da cozinha chegavam até o teto com o vento, e o pêndulo antigo do relógio na sala resume-se em “Tic-tac”. Joaquim ouviu um grito agudo e muito elevado, emitido com esforço, delatando dor e agonia. O menino tapou os ouvidos com força: “JOAQUIM!” 

Olhou do sofá para a cozinha, de onde o assovio havia cessado, e só sobrado uma mão ensanguentada aparecendo na divisória. O menino se levantou, descalço, até a cozinha. Agora, o chão que antes era impecável e exageradamente branco, estava ensopado de sangue, e lá se encontrava a mãe, estirada no chão. Pôde ver a faca, que antes repousava quieta, acomodada na cozinha, agora em seu peito, onde o sangue esvaia-se. Ela tinha morrido de olhos abertos. Lindas castanhas, que agora não esbanjavam mais vida.

O menino ficou parado, pisando no sangue, olhando para a mãe. Olhou para os seus cabelos, empapados de sangue. Foi até a gaveta mais próxima, onde havia uma tesoura, deixando pegadas descalças sangrentas pelo piso. Foi até a mãe, cortou-lhe uma mexa do cabelo, segurou, no alto, observando atendo. Olhou os lóbulos da orelha, onde haviam brincos discretos. Ajoelhou-se ao lado do corpo e tirou-lhe esses brincos. Guardou-os no bolso. Pegou o estilete perto da tela, puncionou, tirou um pedaço e levou á boca. “Bom, amargo, quente”.  Deitou-se ao lado dela, acomodando a cabeça em seu peito. Seu corpo ainda estava quente. As lágrimas queimavam no fundo da garganta. Queria gritar, mas algo o impedia. Olhou para seu próprio peito, onde uma mão preta e enrugada, repousava. Olhou para o que seria o rosto de figura, de forma corcunda. Olhos amarelos fitavam o, junto ao sorriso enorme de dentes afiados e grandes. A figura se moveu em direção á mãe, colocou os dedos finos e longos sobre o ferimento no peito por um instante, logo se foi.  Ficou alguns minutos deitado ao lado da mãe, mas logo se levantou. Seu corpo agora estava todo ensanguentado, e a blusa branca do pijama estava vermelha. Seus cabelos, marrons, pingavam. Sua face, na parte direita, coloria-se de vermelho. Foi até a sala, pegou seus giz de cera, subiu no encosto do sofá, alcançando uma parte alta da parede, e então, começou á desenhar. Traços firmes, específicos demais para alguém de sua idade. Desenhava a mãe e como tinha a encontrado no chão da cozinha. Em algumas horas, já era madrugada e ele já tinha terminado o desenho, que cobria quase toda a parede da sala. Foi até a mãe novamente, e então fechou suas pálpebras. Deitou-se novamente ao lado da mulher, já fria, e dormiu.      

Ouviu-se um barulho, da porta da sala sendo arrombada.

- Ah, meu Deus! O menino! O menino! Salvem o menino! –Uma voz distante, de uma mulher.

Joaquim sentiu pessoas o deitarem de costas sobre uma superfície lisa e firme. Elevaram seu queixo e estabilizaram sua coluna na maca. Sentiu quando levantaram a maca do chão. Não sabia ao certo o que estava acontecendo, e porque estava passando por isso. Depois, apagou.

Acordou em um aconchegante sofá estampado, com um travesseiro macio e um lençol nas pernas.

- Olá Joaquim. – Disse uma moça elegante, de cabelos grisalhos e um sorriso – Meu nome é Amélia, sou uma amiga. Você está bem?

-Mais ou menos. – Disse, timidamente. Olhou ao seu redor, estava num lugar desconhecido, com uma sala grande e alguns sofás. Um copo de leite estava posto em uma mesinha próximo á ele.

-Eu entendo. Não se preocupe, está seguro aqui. É uma das sedes do serviço social. Alguns homens virão aqui para fazer algumas perguntas, e depois acharemos pessoas boazinhas para serem seus pais.

- Tudo bem. – Pegou o copo de leite.

-Tudo bem? Tem certeza? – Amélia estava impressionada, afinal, crianças não costumavam reagir assim quando recebiam essa notícia. Joaquim pareceu não se importar.

- Tenho. – E bebeu o último gole.

Nos dias que se passaram, havia acontecido exatamente o que Amélia tinha falado. Homens altos e elegantes com seus ternos e gravatas, fizeram muitas perguntas para o menino e ele respondeu todas, sem cessar. Estava em seu quarto agora, na sede. Alguém bateu na porta entrou. Um homem de terno, blusa social e gravata escura.

 - Achamos uma família para você. – Disse, sério.

- Onde está Amélia? Ela disse que iria me dar essa notícia... – Perguntou Joaquim.

-Olha, ela... – O homem se abaixou, ficando quase da altura de Joaquim, o olhou fundo. – Ela... Morreu. Ontem á noite. Comeu ou bebeu algo estragado.

-Isso não mata ninguém, senhor.

- Você é mais esperto do que eu pensava. –Tentou sorrir, sem êxito –Vamos, eles estão te esperando.

Joaquim seguiu pelo corredor até uma sala qualquer  e conheceu seus novos pais. Logo, pegou em suas mãos e sorriu, inocentemente. As pessoas, que pareciam ser muito boas, estavam bem vestidas e tinham lindos sorrisos na face. Uma mulher morena, de olhos pretos, e um homem barbudo. Joaquim tentou imaginar como seria sua vida agora, sem a mãe, e com um pai, o que nunca tivera antes.

 Passaram muito tempo conversando e os pais se mostraram gentis e acolhedores. Foram para casa, na Gávea. Eles eram ricos, atenciosos. A “nova mãe” tomava muitos remédios diferentes, mas não era nem um pouco organizada quanto á isso. Se tomasse um comprimido á mais, um á menos, não iria fazer diferença... O “pai” era viciado em cobras, analisava a espécie e o comportamento de cada uma em seu laboratório, e depois fazia relatórios enormes.

Depois de um dia cansativo de mudança, Joaquim foi dormir pensando na figura que vira quando sua mãe morreu. Acordou com som de sirenes da porta de casa. Levantou-se da cama e foi procurar pelos novos pais. Só encontrou o homem barbudo, pois a mãe já havia sido levada para o hospital. Diagnosticada com superdose de medicamentos no corpo, ela não resistiu.

Joaquim passou á morar com seu pai passaram-se muitos anos, e o inocente menino, agora crescido e barbado, já tinha presenciado muitas mortes de pessoas próximas á ele, ou até mesmo de pessoas que ele não conhecia, que morriam “em sua frente” e a figura preta sempre estava por perto, perseguindo-o. Já tinha visto tantas mortes que decidiu ser médico legista. Teve um ótimo desempenho em todas as provas. Era gentil, e algo nele intrigava muitas mulheres. Afinal, ele tinha se tornado um homem bonito, de aparência convidativa.

Começou á namorar Ana, uma colega de trabalho, e quando estavam prestes á se casar, ela desapareceu. Depois, foi encontrada com a garganta cortada, no fundo de um buraco enorme em Niterói. Naquela noite a figura havia aparecido em seu quarto, e sorria.

Joaquim chorou como nunca havia chorado antes.

Depois de algum tempo, ele, de certo modo, já havia superado a morte de Ana, quando finalmente descobriu do que Amélia tinha morrido. Havia sido envenenada, bebera água sanitária.

Durante uma noite fria, silenciosa e sem qualquer rastro de estrelas no céu, Joaquim acordou tonto e suando frio. Conseguiu ouvir o barulho infernal da cigarra, cantando a longe. Foi até a cozinha e pegou um copo d’água. Bebeu rapidamente, ansiedade o dominava. Estava descalço, pisando no chão frio e sentindo a cabeça girar. Viu um vulto preto, camuflado diante a escuridão. Sentiu o coração acelerar e a respiração falhar.

- O que você quer?! - Gritou – Já não tirou tudo de mim? Pare com isso, pare de matar pessoas em minha frente! O que você quer de mim?! – Sentiu o vulto se aproximar, tocou-o no ombro e... sorriu novamente, dessa vez mostrando as amídalas.

- Não quero nada. Pense bem... - Joaquim gritou novamente, levou as mãos á cabeça, ajoelhou-se no chão. Sentiu as lágrimas queimarem em sua face.

- Vá embora! Vá embora! Saia daqui! – E terminou de cair no chão.

Seu vizinho chamara a polícia, que tinha invadido a casa de Joaquim e o levado para a delegacia. De lá, fizeram testes com o rapaz e o mandaram para um manicômio. Concluíram que ele sofria de esquizofrenia e transtorno bipolar.

- A esquizofrenia é uma doença psiquiátrica endógena, que se caracteriza pela perda do contato com a realidade. A pessoa pode ficar fechada em si mesma, com o olhar perdido, indiferente a tudo o que se passa ao redor ou, os exemplos mais clássicos, ter alucinações e delírios. Ela ouve vozes que ninguém mais escuta e imagina estar sendo vítima de um complô diabólico tramado com o firme propósito de destruí-la. Não há argumento nem bom senso que a convença do contrário – Lembrava-se do médico falando para seu pai, enquanto ele ouvia atento atrás da porta – Não sei como só fomos perceber isso agora, senhor.   

Joaquim estava agora em uma cadeira de rodas, encarando os outros malucos daquele lugar. Arrumou o cobertor que cobria suas costas e endireitou a coluna. Não pertencia á esse lugar, sabia que o vulto havia matado todas aquelas pessoas... Ele sabia disso. Por que não acreditavam nele?! Todas aquelas cenas de crimes que ele havia presenciado... Remexeu os bolsos e pegou os brincos da mãe e a mecha do cabelo, guardado em um saquinho, o pingente de Amélia, um dos comprimidos de sua mãe adotiva, o anel de Ana.

 Não, ele tinha certeza que o tal vulto havia feito tudo aquilo... Ele não, ele nunca. 

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