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Eu nunca dei muita bola para o dia das bruxas, pra mim era como mais um dia como outro qualquer, mesmo as pessoas querendo se assustar sem a mínima necessidade. Pra isso existia coisas assim bobas em suas “histórias” como ossos. O legal era apenas os doces, porém não me lembro como se consegue os doces.

Já fazia cinco meses que eu tinha fugido de casa por causa dos constantes maus tratos que sofria, eu tinha fugido uma ou duas vezes, mas sempre voltava, acho que nessa ultima, eles pensaram que eu retornaria com o “rabinho entre as penas”. Ledo engano.

Minha aparência mudou drasticamente, emagreci nesses últimos meses, o suficiente para que todos percebessem minhas costelas, estava sujo demais, raramente me lavava e o mais degradante era arranjar comida, nem sequer os restos de uma refeição decente conseguia numa lixeira, tinha que saborear comida estragada, muitas vezes contra a minha vontade.

Minha vida relativamente mudava com um feriado, o ultimo (eu acho) que vivenciei era o dia das mães, naquele dia, teve tanta comida desperdiçada que eu quase chorei de emoção, comi o melhor frango da minha vida, numa lixeira, eu esperava que no Halloween, houvesse muitas pessoas frescas o suficiente para jogar doces suculentos fora.

Esperei ansioso o lindo anoitecer. Eu morava na rua, contudo, me acostumei com o medo, com a sensação de sempre ficar alerta a qualquer ataque, pelo fato de viver na sarjeta, todos me desprezavam, me recebiam com chutes e gritos e nunca me deram uma única assistência. Acredita que algo ou alguém pode lhe implorar algo apenas com aquele olhar molhado?

Eu fazia isso, e eles não se compadeciam. Eu choro diferente deles, eu não choro.

Quando anoiteceu pra valer, reparei que estava sozinho na mesma praça que havia dormido noite passada, vasculhei os arredores, todos cobertos com abóboras com sorrisos tão retorcidos que me senti apavorado...

Comecei a andar, senti cheiro de chocolate, me aproximei de uma calçada suja de papeis de bala, lá encontrei uma barra de chocolate mordida, abocanhei-a com tamanha felicidade, pois eu estava faminto demais. De repente ouvi passos rápidos atrás de mim, quando virei, notei um enorme grupo de dez indivíduos bastante bizarros e baixos...

O que mais me assustou foi um ser com cabeça de gato (que particularmente detesto). A cabeça do gato era cinza, muito grande para o fino pescoço, os olhos negros e esbugalhados e a roupa branca esfarrapada, a maioria usava roupas em tonalidades cinza, bem claras, também havia pessoas com chifres e garfos gigantes gritando em coro.

- Nossa como ele está faminto! – uma voz que parecia ser um zumbido, machucou minhas orelhas, bem pior que uma cigarra! - Está lambendo esse lixo.

Fiquei quieto, estava apavorado, eles me encaravam e riam, eram deformados, tortos e com uma voz fina e histérica.

- Uh, essa coisa deve estar faminta – ditou a cabeça de gato remexendo em algo que parecia ser uma bolsa – Acho que você vai querer um docinho!

Ele estendeu as duas palmas da mão com uma enorme barra de chocolate, eu não queria aceitar, mas quando se trata de comida, fico ingênuo e tolo. O mesmo colocou-o bem no meio das duas mãos, comecei a devorá-lo ali mesmo, sem me importar.

- Bom menino – disse – acho que vai querer mais! – virou a bolsa ao avesso, despejando inúmeras balas na calçada, tamanha foi a euforia que me deu, que nem me importei mais com sua aparência. Comi aquilo praticamente lambendo o chão.

Minha alegria durou muito pouco, de repente minha cabeça foi enfiada naquela bolsa diminuta de nylon, comecei a me debater, só que ela não saía, além desse sofrimento, essas pestes me emburram, me desequilibrando, caía e levantava para cair de novo, que merda!

Eles acabam por rir maliciosamente desse pequeno infortúnio, meus membros são amordaçados, impedindo-me de sair, começo a debater surtado, porém, eles são fortes o suficiente para me arrastarem para onde queriam.

Da calçada, meu corpo foi arrastado pela areia, sentia até a grama fazendo cocegas, até me jogarem perto da água (mesmo não fazendo a mínima ideia de onde estava, podia sentir o cheiro dela). Não lembro direito daquela hora, mas da tortura sim.

Começaram a me dar pauladas, tão fortes, que sentia meus ossos estalarem, depois colocaram areia nas minhas partes, e esfregaram tabuas com pregos perto delas, rasgando um pouco da pele do local, a dor piorava e eu gritava agonizando, eles nem faziam ideia do que significava aquilo, depois enfiaram um cabo de madeira no meu ânus (pra você, isso deve ser até engraçado, porém é muito hediondo), e começaram a estocar, era latente, maquiavélico e muito humilhante, sentia-me sangrar e “torar”, queria fugir dali, por tamanha dor e medo de algo pior acontecer, ficaram fazendo isso por três minutos terríveis até jogaram aquilo fora de mim.

No final, eles começaram a me furar com algo semelhante a facas, não foi profundo, no entanto, cruel, eles começaram a me esfolar, das costas barriga, com rapidez e barbárie, senti o sangue pingar, e a tortura continuou loucamente até ter perdido boa parte da pele e não conseguir andar direito. Por fim retiraram a bolsa da minha cabeça e socaram minha cara com muita força. O grupo saiu e fiquei ali, jogado, perto da água, me arrastei um pouco até da margem e comecei a bebê-la.

Quando minha energia voltou, mesmo que pouca iniciei minha caminhada de volta a calçada, meu corpo ardia muito e tinha vários hematomas. Quanto tempo havia se passado?

A rua estava ainda mais escura e ainda mais povoada, havia mais demônios que eram bem mais deformados, a maioria usava preto, mas havia também os que usavam cinza, um era uma criança com asas de inseto saindo das costas, outro, uma aberração com marcas na cara e nariz tumoroso e redondo, havia alguns com presas salientes, e outros com fluídos caindo da boca. Riam felizes, carregando suas bolsas de doces. A raiva rapidamente me apoderava, enquanto os monstros estavam “alegres”, eu estava completamente fodido. Corri até alguns deles, salivando muito, eles tremeram devido a meu estado, não quis saber, poderiam me atacar de novo! Pulei em cima de alguns deles, que deveriam ser menores que os outros, e os ataquei, os arranhava, os mordia com fúria, usei uma força fora do comum, enquanto eles gritavam, mais e mais apareciam para me deter e eu os atacava sem dó, meus dentes se cravavam fácil em sua pele seca, saia até sangue com minhas arranhadas e mordidas, um sangue cinza e viscoso, porém doce demais pra mim.

Ao terminar o serviço, mais um susto, o pior. Aquele sinistro carro negro apareceu no meio da rua, os monstros correram e eu fiquei desorientado, eu sempre acreditei que eles não eram reais, que apenas eram ameaças para alguém desobediente como eu. O carro parou bem na minha frente e dois homens altos saltaram. Eu vi poucos homens em minha vida, porém estes me assustavam.

Fiquei posicionado para o possível duelo, eles sacaram grandes cabos com cordas e começaram a me esganar, enquanto eu tentava sair daquele aperto, balançando o pescoço desesperadamente, eu rugia, tremia e não adiantava de absolutamente nada.

Imobilizaram-me e jogaram meu corpo naquele carro, fomos às pressas, o carro parou imediatamente, me arrastaram pelo meu pescoço que já doía pelos puxões e me amordaçaram por completo, até na boca, fiquei mudo diante disso.

Eles me empurraram para uma cela apertada, a qual tive que ser chutado para caber, depois a trancaram na minha cara, com as grades me comprimindo. Passei poucas horas naquele cubículo, enquanto aqueles homens gritavam comigo, por fim me retiraram aos puxões e me trancafiaram num quarto.

“Que belo Halloween eu tive, demônios ordinários!” – pensei- “pelo menos, comi algo descente.”.

Fui deitado numa cama metálica, o frio percorreu minha espinha, enquanto meu corpo exposto estava naquele vazio, eles retiraram cordas da cama e amarram cada centímetro do meu ser.

Viram meus olhos, boca, orelhas...

- Está com raiva – uma voz rouca ditou.

Fechei os olhos, eles tiraram a mordaça da minha boca e verificaram meus dentes e gengiva, olhei a porta. Ela se abriu. E ela veio.

Louise. Eu morava com ela, era uma garota gentil que sempre me protegeu como pode, mas preferi fugir e não piorar sua vida, ela estava tristonha e chorava muito, ela caminhou até mim e me acariciou na cabeça.

Ela deve ter me procurado nos últimos dias, ela sempre fazia.

- Oh, Tomie, o que fizeram com você? – choramingou suas lágrimas não paravam de descer.

- Fique longe dele, iremos ter de isolá-lo... – o homem falou, mexendo em algo metálico. Uma seringa. - Ele ficará bem.

- Não fale mentiras pra mim! – Louise gritou. – Me deixe pelo menos me despedir dele.

A voz dela era tão bonita. Parecia com a voz daqueles demônios, acho que o halloween é maldito como dizem, para que seres deformados como estes cometam atrocidades como essa.

A garota olhou nos meus olhos ainda chorando, mesmo eu, contendo minha raiva, não pude evitar, chorei também, não como ela que lacrimejou, mas acho que só ela que percebeu que eu também chorava o restante não.

Louise me deu um beijo no topo da cabeça.

Você deve até me julgar por eu não ter derramado uma única lágrima.

Eu queria, mas não posso.

Cachorros não lacrimejam.

E o homem injetou na minha veia.

(OC de CherryBell [suprise modafoca, eu voltei])


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