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Naquele dia, o termômetro de casa estava marcando uns 7 graus que eu considerava ser quente naquele inverno rigoroso. Como de costume, fui ao trabalho, me despedi de minha amada que com uma voz de pena disse:

-Você não vai voltar para a cama? - Era uma voz tão suave que tive remorso em responder rispidamente a ela, mas era o meu jeito. Eu já havia testemunhado os horrores de uma guerra, e tinha minhas razões para falar assim. Mas de qualquer forma eu falei:

-Vou, é o meu dever. - Ela ficou triste por um tempo, mas depois se acostumou e voltou a dormir.

Nesse dia, as coisas estavam calmas de mais, e quando cheguei para atravessar Check point Charlie até Berlim Ocidental (eu achava tudo aquilo uma safadeza) avistei uma barricada um pouco alta, mas se nenhum pretexto.

Um guarda olhou para mim e falou: "O senhor quer ir até Berlim Ocidental, não é?", eu achei meio estranho, mas falei: "Sim". Ele me olhou com uma cara e me pediu os meus documentos, sem reclamar, eu lhe dei. Ele me deixa passar.

2 meses se passaram, mas no dia 27 de maio eu acordei com barulhos de caminhões e tratores. Achei estranho e foi ver o que se tratava. Segui com o meu carro em direção ao lugar de costume onde o guarda iria ver meus documentos. Chegando lá, vi meu amigo, Sebastian Setorvick me dando um sinal estranho para sair daquele local, eu não soube reconhecer o sinal e por isso quando cheguei mais perto fui recebido com uma chuva de balas de fuzil. Dei a ré como um louco e quase bati num trator que havia chegado pouco depois de mim.

Em casa, falei para minha mulher:

-Vamos, se vista rápido e pegue as coisas, vamos sair daqui!- Ela muito assustada obedeceu e guardou tudo numa mala, que até hoje me lembro da textura e da cor de crocodilo, pois era feita do mesmo.

Depois de um tempo na cidade de Haunsdra, meu amigo Sebastian ligou para mim e falou por telefone: “Onde vocês estão, apareci na sua casa e não tinha ninguém! Diz-me onde vocês estão e eu vou achá-los”, dei minha localização e quase 1 ou 2 horas depois ele chegou. Eu todo afobado logo o interroguei:

-O que foi aquilo?! Eu podia ter morrido!- Nem deu tempo de eu falar um palavrão, pois o sangue estava muito na cabeça.

-Calma, eu vou explicar tudo a vocês. O nosso coronel falou para quem chegar mais perto do muro, era para atirar, sem dó. É claro que eu não faria isso com vocês, mas meus "amigos" fizeram. - Eu ainda estava meio em dúvida por que diabos eles haviam construído aquele muro, mas eu deixei que prosseguisse. Mas Catharina (a mulher que sempre falo) perguntou a ele:

-Porque eles construíram aquele muro?- Não sei por que, mas só naquele momento eu percebi sua real beleza: cabelos ruivos, e bem chamativos, uma face linda e branca como a de uma boneca e uma intelectualidade impressionante e até mesmo chamativa, não por ser “barraqueira”, mas por se destacar na multidão.

-Há um boato que diz que a URSS está perdendo a mão de obra para a parte Ocidental, e para cuidar disso, eles construíram essa parede horrenda.

Nesse momento um batalhão de soldados entrou no casebre onde nós estávamos começaram a atirar como loucos. Um dos tiros acertou Sebastian no braço e o outro acertou em mim. Depois disso desmaiei e quando acordei, o vi agonizando e não vi Catharina. Rapidamente peguei os curativos e fechei a ferida que estava jorrando sangue.

No instante que percebi a falta dela, fiquei maluco, quebrei tudo, mas o coitado que havia levado um tiro me consolou e disse:

-Temos que resgatá-la, eu sei onde fica o QG deles, leva um tempo para transportarem ela para a prisão. Ela deve estar lá.

Sem pensar, na verdade pensando como ela deve estar, eu fui com a pistola de meu falecido pai e muita coragem.

Chegando ao quartel, eu vi umas das cenas mais horríveis de toda a minha vida. Ela estava amarrada e toda nua, possivelmente servindo de escrava sexual. Fui de cara à tapa (não era muito de andar e modo surdina) e levei mais dois tiros. Meu amigo coitado levou um na cabeça onde jorrou sangue até na minha boca.

Os demônios, sabendo que eu fui lá para resgatá-la, fizeram uma chantagem: Ou eu me entregava, ou ela morria. Foram os segundos mais difíceis da minha vida. Com o coração na mão dei 5 tiros nela. O tempo parou… Os soldados me deixaram viver, e viver com a culpa da morte dela. Mas antes de ir, ela me disse: "Obrigado…" eu sabia que ela morreria de qualquer jeito e em vez de morrer sofrendo, eu a concedi uma morte não tão dolorosa. 

Iavan Scolovski - 1999

Inverno na cidade de Berlim

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