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Família a Três

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FAMÍLIA A TRÊS

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Autor : Drin, L. P.


Não me lembro de onde, apenas para onde.

Estava voltando para a minha casa em uma tarde ensolarada, e é isto que me lembro. Meu nome é Eric. Sei que isso pouco importa, mas não vejo o porquê de não dizê-lo. Sei também que provavelmente você não se lembrará do meu nome quando eu terminar de contar minha história. Mas estou bem com isso.

Este fato aconteceu durante a minha infância. Quando eu tinha apenas doze anos de idade. Morava em uma pequena cidade, o que significa que não tínhamos muito o que fazer. Estávamos acostumados à monotonia da paisagem rural, ao qual provavelmente as pessoas da “cidade-grande” podem não se associar. Mas, como disse, voltando para casa, passei por uma pequena estrada de terra. É claro que já havia, há muito, passado por ali. Esta provavelmente foi a última vez. Desta vez, em particular, notei um pequeno desvio no caminho.

É provável que você me pergunte como não o notei anteriormente, mas a verdade é que eu não sei a resposta. Talvez estivesse distraído nas outras vezes. (É... Talvez estivesse.). E percebi que essa estrada não era usada há muito tempo, diferente daquela em que eu já estava acostumado e que levava novamente ao asfalto trincado da cidade. Algo dentro de mim, bem ao longe, me dizia: “Está ficando tarde, você deveria ir para casa”.

Mas como sempre acontece em todas essas histórias, é óbvio que eu, no meu vago senso de aventura incitado por desenhos de TV, resolvi verificar os caminhos por onde aquela estrada levava. Provavelmente estivesse imaginando que teria algo de interessante para contar quando voltasse para a escola e a professora de literatura nos pedisse para escrever sobre isso. Sabe? Aquela coisa abominável sob o título "O que eu fiz nas minhas férias de verão" ou qualquer outra porcaria do tipo. Enfim... Não importando as razões ao certo, tomei o caminho inexplorado.

---

A estrada não era pequena. Na verdade, após alguns metros, tornava-se enlanguescida o bastante para um carro. No entanto, conforme andava, percebia o porquê de seu abandono. Uma extensa cobertura de matos, valas, e até mesmo rochas desprendidas sobrepunham a maior parte do caminho. Andei durante muitos metros. Centenas, ou mais. O sol acompanhava meus passos, enquanto eu observada minha própria sombra alongar-se à minha frente.

Passados poucos minutos, pude ver que ao meu lado esquerdo apareciam sinais de um pequeno cercado, acompanhando a beira da estrada. Frágeis madeiras, corroídas por cupins, ainda lutavam para permanecerem em pé sobre o solo arenoso. Ao fundo, pude observar o céu alaranjado sobre as poucas árvores cor de cinza e sem folhas, que teimavam em crescer sobre gramíneas ralas e secas. Foi então que vi, de relance, uma pequena figura.

Não uma, pois conforme o sol caminhava atrás de mim, pude ver que eram duas, talvez três, se contasse o último contorno escurecido à distância. Passei por debaixo do arame envolto às cercas que se pendiam na terra e cheguei mais perto. Era um pequeno espantalho. Ao contrário do que se pode imaginar não era nem um pouco assustador. Na verdade, era algo cômico e tosco, o bastante para até mesmo os pássaros rirem.

Vestia uma roupagem ridícula, provavelmente de algum filho de fazendeiro que estivesse apertada demais para o garoto usar. Estava rasgada e carcomida, enquanto o pano estufado por mato seco ainda resistia por baixo. O pequeno espantalho, no entanto, usava um boné que ainda estava intacto, apenas um pouco desbotado por conta do Sol.

Pensei comigo mesmo que talvez fosse uma boa ideia levar ao menos um suvenir. Não seria roubar? Seria? Afinal, havia outros espantalhos, qual o problema em pegar um pequeno chapéu de um deles? E não. Não aconteceu nada. Nada ridículo como o espantalho ganhar vida e engolir meus dedos com uma boca cheia de agulhas no lugar dos dentes. Não.

O que aconteceu foi que algo mais havia chamado minha atenção. É claro que sabia que ele estava lá. Afinal, o havia percebido antes mesmo de me aproximar do pequeno espantalho. À cerca de cem metros de onde me encontrava, escondido sob as copas das árvores secas e cinzentas, havia um galpão.

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Um galpão. Comum e envelhecido. Que há muito deveria ser usado como uma despensa de materiais rurais. Fui até a única porta. Percebi que a fechadura não sobreviveu ao tempo. Apenas um pedaço de ferrugem e nada mais. Empurrei a porta, que não ofereceu nenhuma resistência, e fiquei parado, assistindo, enquanto ela me revelava o seu conteúdo.

Até então, me encontrava em um estado de excitação absurda. E o coração acelerando conforme adentrava aquele mausoléu de enxadas, pás e arados. Agora aquela voz que vinha de dentro ficou mais forte: “Volte! Volte agora. Você já viu o suficiente.”. Mas o senso idiota de aventura ainda estava em mim.

Havia um cheiro muito forte. Não o cheiro de podre e velho, característico de lugares assombrados que as pessoas estão acostumadas a ler, mas nunca sentir. Era o cheiro de óleo, pretejado e estragado pelo tempo. Pude ver uma estranha máquina (talvez uma moedora) encostada na extremidade do galpão, derramando o liquido escuro que infiltrava o assoalho de madeira podre.

Não havia muito. Apenas materiais, sacos de sementes e alguns poucos animais mortos, na maioria ratos. Um deles parecia se mexer estranhamente. Mas observei melhor e pude ver que eram larvas brotando do buraco que um dia foi a sua barriga. Decidi que havia visto o bastante, estava na hora de voltar. Sentia-me apavorado e um pouco enojado com o lugar. Não queria ficar ali.

No momento em que me virei para a única saída, eis que vejo parado sobre a soleira da porta, o contorno escurecido que, anteriormente, em minha ingenuidade, não dei atenção.

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Ao contrário do que se possa imaginar não era uma entidade sobrenatural, nem um maníaco vestido de alguma máscara assustadora. Era um simples fazendeiro. Um senhor, que provavelmente aparentava ser muito mais velho do que sua real idade. A expressão em seus olhos era vaga, vazia. Em parte, foi o que fez meu sangue congelar. Ele não olhava para mim, olhava através de mim, se é que isso fosse possível.

O homem não ousava entrar no galpão, do qual eu me encontrava bem ao centro. Apenas apontou em minha direção, murmurando lentamente: “O boné... Devolva-o.”. Confesso que estava apavorado, apavorado demais para sentir vergonha ou algo do tipo. Apenas pequei o boné e andei o bastante para estendê-lo até o braço apontado do fazendeiro. Ele o pegou, e sem nenhuma outra palavra deu as costas e desapareceu da minha visão.

Fiquei ali, estático. Demorei um pouco para me recuperar do susto. Recobrando melhor os sentidos, achei que deveria pedir desculpas ao homem. Saí do galpão, deixando a porta atrás de mim entreaberta. Procurei pelo fazendeiro, mas não o encontrei.

Quando passei pelo pequeno espantalho novamente, vi que o boné estava em seu devido lugar. Parei, no entanto, para notar melhor o segundo espantalho, do qual não havia me atentado anteriormente. Ele tinha longas palhas pretas, que desprendiam de sua cabeça, talvez enegrecidas por óleo ou qualquer outra coisa parecida. A roupa era de um vestido simples, e menos desgastado do que as roupas do espantalho-garoto.

Neste momento, uma sensação de calafrios percorreu o meu corpo.

Tive a impressão de que algo estava errado. Saí dali. No inicio a curtos passos, e, conforme me afastava, comecei a correr. Sentia algo me observando. Não olhei para trás, exceto uma vez. E juro que quando olhei, bem ali, ao lado do espantalho-garoto e do espantalho-mulher, eu pude ver um terceiro espantalho.

Pregado, assim como os outros, me encarando com os olhos vagos e vazios. Usando roupas de fazendeiro.

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