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Bom, essa é uma daquelas histórias que você vai ler e achar que é mentira ou invenção da minha cabeça. Se eu a ouvisse de alguém, acharia que foi inventada. Não acreditava nessas coisas, até acontecer comigo e meu grupo de amigos.


Nós éramos um grupo de seis amigos. Eu, meu namorado Ralph, Camille, Carlos, John, e a Hellen. Conheci o Ralph na faculdade, ficamos amigos e começamos a namorar. Camille não fazia o mesmo curso que a gente, mas o edifício em que ela estudava era vizinho ao nosso, acabei a conhecendo e ficamos muito amigas, tínhamos vários gostos em comum. Carlos conheceu meu namorado ainda no primário, eram vizinhos e frequentavam a mesma escola, com o passar dos anos continuaram próximos e assim que comecei a namorar com Ralph logo o conheci e ficamos muito amigos também. John era um amigo que havia perdido contato e um dia o encontramos no bar por acaso. O apresentei ao Ralph e ao Carlos e os três se deram bem de cara. Cada um tinha uma história de convívio comigo ou com meu namorado. No final das contas, depois de algumas saídas, nosso grupo ficou muito unido e nos juntávamos pelo menos uma vez por semana para falar bobagens e tomar uma cervejinha. O time estava sempre completo, Camille e eu sempre fomos mais molecas, então os assuntos sempre eram engraçados com os meninos. Até que um dia, em um bar, nós cinco conhecemos a Hellen.


Hellen era uma garota de traços comum, mas bonita. Ao contrário de mim e de Camille, era muito magra e um pouco mais alta. Seus cabelos eram lisos escorridos acastanhados até o ombro e ela tinha certa angústia no olhar. Seus olhos castanhos escuros combinavam com seu tom de pele pálido. Estava vestida com roupas bem básicas, mas notava-se que eram caras e de bom gosto. Tinha o estilo mais despojado e estava de Vans, uma calça jeans preta skinny que lhe servia perfeitamente e uma camiseta simples cinza, além de um blazer preto de corte reto muito bonito. Logo de cara a achei estilosa, pensei que poderíamos ter gostos parecidos para roupas.


De início ela ficou calada a noite toda. Estávamos comemorando o aniversário de Carlos, e como todos nós acabamos nos atrasando ela já estava lá quando sentamos-nos à mesa, junto de alguns outros convidados. O grupo era bem grande, além de nós cinco havia bem umas quinze pessoas. Dado esse fato, não sei ao certo com quem Hellen estava acompanhada. Ela não falava nada e não interagia com ninguém, estava sentada na ponta da mesa apenas acompanhando as conversas com seu olhar penetrante angustiado e soltava uns sorrisinhos amarelados quando alguém falava alguma grande besteira. Como me incomodo com pessoas deslocadas e gosto de fazer com que elas se sintam a vontade, forjei uma forma de puxar conversa com ela.


Desde o início só tínhamos a cumprimentado e ela havia dito seu nome, então resolvi ir ao banheiro e na volta puxei uma cadeira e me sentei ao seu lado. Quando o fiz, Hellen demonstrou-se surpresa. Perguntei de onde ela conhecia Carlos, simplesmente para puxar assunto, e ela me respondeu que não o conhecia antes, que tinha vindo acompanhada com os amigos. Comecei a falar de coisas bem vagas e fazer perguntas amigáveis, logo iniciamos uma conversa e ela se mostrou mais aberta. Um dos amigos de Carlos, que também conhecia Ralph, entrou na conversa. Achei de primeira que era um dos amigos de Hellen, mas pela conversa depois percebi que não se conheciam e a intenção dele era bem mais do que só conversar com ela. Quando percebi que havia certa quantidade de pessoas interagindo conosco me senti aliviada de integrá-la na galera. Com o passar das horas os amigos de Carlos foram indo embora. Ficou difícil perceber quais eram os amigos de Hellen, então quando estávamos apenas nós cinco na mesa, um ficante de Camille e ela perguntei quem era seu grupo de amigos. Hellen disse que eram Yuri e Nathan, os irmãos gêmeos que haviam sido um dos primeiros a ir embora. Hellen disse que se sentiu a vontade de continuar conosco na mesa, então resolveu ficar. Como eu já tinha bebido algumas cervejas, achei que minha percepção estava ruim e não estranhei o fato, mas pensei no quanto Yuri e Nathan tinham sido desnaturados em deixar a amiga de lado a noite toda e depois irem embora sem ela. Continuamos mais uma meia hora no bar e Hellen estava se dando bem com o nosso grupo inseparável, exceto com Camille, pois ambas se alfinetavam sutilmente em variados assuntos. Carlos estava encantado com ela, então na hora de ir embora perguntou a ela se gostaria de sair mais vezes conosco. No momento achei a ideia bacana e pedi seu e-mail, para podermos continuar conversando. Nesse momento, Hellen abriu um grande sorriso e disse que iria sair mais vezes com a gente e que tinha gostado muito da nossa galera. E assim fomos todos para casa e eu estava feliz de ter mais uma amiga.


Bom, passado esse dia, a adicionei no Facebook e começamos a conversar. De fato tínhamos gostos parecidos, passamos à tarde de domingo inteira falando sobre estilo de roupa que gostamos, música, lugares bacanas para sair. Comecei a criar uma amizade com ela diferente da que tinha com Camille, que apesar de ser uma grande amiga, não se interessava por moda e gostava de músicas pop do momento, enquanto que eu e Hellen já gostávamos mais de rock. Hellen parecia ser a amiga que sempre sonhei em ter, sempre fui carente com amizades femininas.


Após uma semana conversando quase todos os dias com Hellen, marcamos um barzinho com a galera toda. Falamos pra ela chamar Nathan e Yuri, mas quando ela chegou ao bar disse que havia falado com eles e não poderiam vir. Como Carlos estava mais interessado nos peitos de Hellen do que em qualquer outra coisa, nem se deu o trabalho de tentar convidá-los. Ela estava vestida semelhante á semana anterior, tênis de marca, calça jeans escura e camiseta. Estava impecável. Camille a cumprimentou com um abraço seco e se sentou no extremo oposto da mesa. A noite foi bem agradável, todos estavam se dando muito bem com a nossa nova amiga. Depois de tanto beber viemos embora. No carro com meu namorado, comentei que poderíamos adicioná-la no nosso grupo do Facebook, onde estávamos todos. Ele achou uma ótima ideia, afinal, ela já era praticamente do grupo. Quando cheguei em casa comuniquei a todos minha ideia e todos concordaram que seria ótimo, tirando Camille, que apenas falou ‘’acho que ela se faz de gente boa, sinto algo errado nela’’. Não ligamos e falei no chat privado de Hellen da minha ideia, expliquei que o grupo era onde conversávamos, falávamos bobagens e marcávamos de sair. Ela ficou muito feliz e me disse que nunca tinha tido amigos desse jeito, e logo a adicionei.


Passaram-se três meses e estava aparentemente tudo normal. O meu grupo de amigos era sempre bem animado e sempre saíamos como de costume aos finais de semana. Hellen começou a ser querida por todos a nossa volta. Comigo ela era um doce de pessoa, conversávamos sobre nossos gostos em comum. Com o Ralph ela era brincalhona e sempre foi bem respeitosa, não era o tipo de amiga que o namorado tem e você fica com ciúmes. Com Carlos tínhamos a impressão que ela sempre flertava, mas ainda não havia rolado nada. Com Camille sempre rolavam alfinetadas, mas as duas eram civilizadas e nunca ocorreu nenhum tipo de atrito maior. Com John ela criou uma amizade meio esquisita, geralmente era ele que a buscava em casa para sair, mas a impressão que me passavam era que tinham pouco papo. Ela morava no mesmo bairro que ele e meu namorado, numa casa enorme e bem bonita. John sempre a buscava, mas nunca conheceu ninguém de sua família. Ele sempre ligava para ela minutos antes de chegar e quando estacionava o carro na frente de sua casa, ela já estava lá fora o esperando. Como John era extremamente viciado em álcool, sempre a deixava em casa e nunca se lembrava de como chegava à sua. Hellen aparentemente não se importava nos riscos da direção de John alcoolizado. John vivia dizendo que um dia ainda ficaria com Hellen, só para nós, sem ela ouvir. Quando Carlos ouvia isso ficava possesso e falava que ele era um grande galinha e aproveitador. John ria muito, adorava provocar Carlos.


Numa fria sexta-feira de outubro, resolvemos marcar de ir a uma festa. As coisas começaram a ficar estranhas por aí. No dia iria acontecer o de sempre, John a buscaria e eles iriam juntos à festa. Camille pegaria carona com Carlos e eu iria com meu namorado. Como o carro de Ralph estava no conserto, combinamos de pegar carona com John. Ele nos buscou na casa de Ralph e buscou Hellen em seguida. Quando chegamos em frente de sua casa, fiquei admirada com o seu tamanho. Estava explicado como ela tinha tantas roupas legais, deveria ser muito rica. Ela nunca foi de falar muito de sua família, apenas sabíamos que vivia com os pais e um irmão mais novo. Fiquei me perguntando o porquê de nunca termos sidos convidados para sua casa, aparentemente parecia ser um lugar legal de tomar banho de piscina e beber umas cervejas, além do fato de Hellen já ter frequentado a casa de todos nós nos últimos meses. Quando estacionamos o carro, ela já estava na porta da casa esperando. Ela sempre estava impecável e com seu uniforme de tênis, calça skinny, e camiseta. Estava com um casaco de couro preto muito bonito por conta do frio. Seu olhar angustiado de sempre estava presente, juntamente com o sorriso amarelo. Entrou no carro e meu namorado passou para o banco de trás, dando espaço para o banco da frente para ela. Nos cumprimentamos todos com nossas piadinhas habituais e seguimos para a festa, que seria em um local ao ar livre na beira da lagoa da cidade.


Como de costume todos nós bebemos muito e nesse dia acabei conversando bastante com Camille, o seu namorado (que anteriormente era apenas um ficante) havia viajado e ela estava bastante carente. Camille acabou soltando que estava com ciúmes de mim com Hellen, falou que eu só dava bola para a ‘’magrela monocromática’’. Ri do apelido e disse que era impressão dela, gostava de ambas e cada uma tinha suas qualidades. Enquanto conversávamos sentadas no deck do local observava Ralph e Carlos conversando com uns conhecidos próximos a nós e Hellen conversando com John próximos a um bar improvisado que a produtora da festa montou no gramado. Comentei com Camille que John não tinha jeito, já estava dando em cima da coitada da Hellen e Camille riu. Fizemos uma aposta se ele conseguiria algo, eu apostei que não. Passaram-se alguns minutos e vimos que de repente Hellen vinha em nossa direção, com o olhar furioso e um copo vazio na mão. Atrás dela vinha John, rindo muito, todo molhado. Hellen se aproximou e disse que John a havia tentado beijá-la. Ele ria e pedia desculpas várias vezes para ela, pegava em sua mão e falava que foi um acidente. Hellen explicou que jogou sua cerveja na cara de John no momento de raiva e Camille estava gargalhando muito da situação, eu estava achando tudo muito engraçado, mas tentei me manter séria e ouvir os dois lados. Percebi que Hellen não estava achando nem um pouco engraçado, na verdade ela estava bem irritada e falou que queria ir embora. Esse era outro detalhe intrigante, Hellen sempre dizia quando saíamos que ela deveria estar em casa antes das 04h44 da manhã, pois senão seu pai virava uma fera. Sempre perguntávamos o porquê de ser um horário tão específico e John fazia até algumas brincadeirinhas, mas ela sempre desconversava e explicava que era uma das poucas regras que seu pai estipulara; como ela não gostava de vê-lo irritado, apenas obedecia.


Já que Hellen estava bem brava e querendo ir embora, comecei a ‘’catar’’ meus amigos pelo meio da festa, já eram 3h e tantas da manhã e John, que nos daria carona, já estava super alterado. Achamos Carlos e Ralph e nos dividimos nos respectivos carros. Hellen pediu para Ralph ir no banco da frente ao lado de John e eu fui no banco de trás tentando acalmá-la da raiva, mas ela não me deu papo algum até chegarmos em sua casa.


Quando estacionamos perto da casa dela, disse antes de sair do carro: ‘’Já sabe né, não precisa ficar me esperando entrar!’’. Bateu a porta com muita força e saiu bem rápido. Como sou uma pessoa muito preocupada com violência falei que era melhor ficarmos olhando ela entrar em segurança em casa, mas antes mesmo de eu terminar a frase John partiu com o carro. Ele contou que toda vez que a deixava em casa ela dizia isso, e que ele estava acostumado. Perguntei do porque ele não esperar ela entrar em casa, mesmo assim, pois o mundo anda muito perigoso, alguém poderia surpreendê-la na entrada, e fiquei surpresa com a resposta. John falou que pela primeira vez em que a deixou em casa ficou olhando ela pela janela, esperando-a entrar. Ela chegou até a porta, ficou de frente para ela e não entrou. Ele começou a gritá-la para entrar e ela o ignorava, apenas ficou estática de frente pra porta, sem se mexer. John ficou algum tempo esperando e gritando, até que se cansou pela bebedeira e partiu com o carro. Disse que quando olhou no retrovisor viu a porta fechada sem Hellen na frente, como se ela tivesse conseguido entrar em um milésimo de segundo em que ele não estava mais olhando. Enquanto ele contava isso para a gente, fiquei olhando pelo retrovisor do carro a porta de Hellen. Ela aparentemente já havia entrado, pois não a vi na porta. Achamos a história bem esquisita, mas Ralph disse que provavelmente ela estaria bêbada também e demorou pra entrar. John disse que isso aconteceu algumas vezes de início, até o dia em que ele se contentou em apenas deixá-la na porta de casa e vir embora, sem se preocupar se ela estava entrando em casa ou não. Continuei falando que isso era estranho, mas John me cortou, disse que Hellen era meio doida e não queria mais saber dela e que ia procurar um novo rabo de saia para investir, Ralph riu e eles começaram a gargalhar e falar uma besteira qualquer. Fiquei pensativa durante o caminho todo até a casa de Ralph e me perguntando comigo mesma quem ficaria que nem uma doida em frente a porta de casa de madrugada até que a sua carona partisse. Cheguei à conclusão que estava muito bêbada e desisti de pensar.


No dia seguinte, Hellen estava bem calada no grupo e John veio fazendo alguma piadinha sobre ela ser uma pessoa difícil de convencer. Ela foi um pouco sarcástica e grossa, mas depois de algum tempo estávamos todos rindo. Em um momento comentei que tinha achado sua casa muito bonita e ela agradeceu, disse que era antiga e seus avós a tinham construído 52 anos atrás, quando se mudaram para nossa cidade. Carlos brincou e falou que já estava na hora de conhecermos seu lar e perguntou se ela tinha piscina, todos riram e Hellen respondeu que sim, que talvez um dia ela convidaria a gente para uma festinha, mas que precisava esperar a época do calor. Logo após mudou de assunto e fiquei pensando se ela realmente nos convidaria.


A partir desse dia o comportamento de Hellen começou a ficar meio esquisito. Ela conversava muito conosco no chat do grupo, mas eu e ela também conversávamos muito no chat privado sobre assuntos diversos. Ela sempre teve papos agradáveis comigo, mas com o tempo percebi que eram bem superficiais. Nunca havia contado nenhum problema ou algo muito íntimo para ela, e ela também não. Com o tempo percebi que ela adorava falar das pessoas, fosse julgando ou falando algo maldoso. Nesse dia lembro que ela abriu o chat privado e me perguntou o que eu achava do jeito que Camille agia com todos nós. Achei a pergunta meio estranha e falei que não estava entendendo onde ela queria chegar, então ela me disse que Camille andava falando mal de mim por aí. Fiquei surpresa, como ela poderia saber disso? E o mais importante: Se fosse verdade, por que Camille estaria fazendo isso?


Hellen continuou a conversa e disse para eu abrir os olhos, inclusive me disse para prestar atenção em como Camille agia com Ralph e pediu pra eu não falar nada pra ninguém sobre nossa conversa. Pronto, eu já estava com a pulga atrás da orelha. Sou uma pessoa leal a quem me pede segredo, mas costumo dizer que quando alguém me conta algo automaticamente Ralph vai ficar sabendo também, e vice-versa. Somos extremamente fofoqueiros um com o outro, então no mesmo momento fui perguntar para ele se estava sabendo de algo que a Camille tinha dito ou se ele tinha notado ela se insinuando para ele. Ralph disse que não havia notado nada, mas que Hellen já havia falado pra ele abrir os olhos em relação à Camille, pois ela estava dando em cima dele descaradamente e ele não estava percebendo. Fiquei um pouco chateada na hora, por ele não ter me contado antes; ele se desculpou e disse que ela havia comentado isso alguns dias atrás, mas como estava muito ocupado com a faculdade, esqueceu-se de me contar. A partir desse dia, comecei a olhar para Camille de um jeito diferente, tudo que ela fazia me fazia achar que era algo ruim. Fiquei paranoica.


Passou-se alguns dias e Ralph e Carlos iria jogar videogame na casa de Ralph e eu estava lá de bobeira, então me juntei a eles. Ralph como sempre muito brincalhão perguntou para Carlos se ele ainda tinha interesse em Hellen, mas ele não riu e tentou desconversar. Ralph insistiu no assunto e ficou perguntando qual era o problema e Carlos respondeu que tinha desanimado com ela, pois ela andava fazendo coisas das quais ele não gostava.


Fiquei interessada no momento em que ele disse isso e o perguntei do porquê. Carlos desconversou e fiquei insistindo em saber o que era, pois sou muito curiosa. Depois de tanto encher seu saco e perder duas partidas por ter se desconcentrado, ele resolveu nos contar. Disse que estava no shopping procurando um presente de aniversário para sua mãe e Hellen estava na livraria em que ele estava. Ele a viu e a cumprimentou, ela sorriu e perguntou se ele não queria acompanhá-la num café. Os dois sentaram no café ao lado da livraria e começaram a conversar sobre a vida. Carlos disse que até aquele momento estava bem animado com ela, que estava imaginando que era uma ótima oportunidade de ganhar alguns pontos e conseguir conquistá-la. Até que ela começou a falar algumas coisas desagradáveis. Primeiro começou a alfinetar as roupas de Camille. Até aí ele estava ficando apenas entediado, até que a conversa começou a ser levada para outro rumo. Hellen começou a dizer que Camille era vulgar. Falou que ela dava muito em cima de Ralph, e Ralph era bem tonto, pois percebia e retribuía. Nesse momento olhei para Ralph e ele estava espantado com a situação. Carlos continuou contando. Hellen disse que Ralph não deveria ser um bom namorado, pois estava dando em cima dela também. Disse também que eu era uma tonta que não percebia isso. E também disse que eu não me enxergava, pois sou muito feia e ficava tentando imitar as suas roupas, mas que eu era pobre demais para conseguir. Quando Carlos terminou de contar tudo fiquei surpresa, como ela poderia ser tão cruel? Ralph ficou irritadíssimo, disse que ela estava viajando, que ele nunca havia sequer olhado para ela de uma forma diferente e que nunca notou Camille flertando, e muito menos retribuiu. Achei tudo muito esquisito e fiquei confusa em quem acreditar. Ralph ficou chateado comigo na hora e disse que não queria mais jogar. Falou que iria tirar a história a limpo naquele momento. Carlos pediu que ele não fizesse isso, seria um conflito e tanto. Depois de muito especularmos sobre tudo, percebi que estava sendo idiota de não acreditar em meu namorado e também de desconfiar de minha amiga Camille. Resolvemos que iríamos ficar quietos sobre este assunto e não dar de frente com Hellen. Iríamos agir como se nada tivesse acontecido, e veríamos aonde essa história iria parar.


No dia seguinte chamei Camille para conversar e contei a ela tudo que Hellen havia feito. Na hora Camille queria matá-la, mas a acalmei. Acabei descobrindo mais coisas. Ela me contou que nas primeiras semanas em que Hellen estava no chat do grupo, puxou uma conversa no privado com ela. Camille tinha achado esquisito, pois as duas não se davam muito bem, mas disse que tentou ser amigável. Isso virou uma rotina, Hellen vinha todos os dias puxar papo e as duas acabaram ficando de bem uma com a outra. Um belo dia, Hellen começou a falar para Camille que eu era muito imitona e não tinha estilo, e falava também que eu era sonsa e dava em cima do ficante, que agora era namorado, de Camille. Na mesma hora Camille a cortou, disse que não ia cair nessa de intriguinha e assim Hellen parou de tentar uma aproximação. Disse que depois disso só cumprimentava Hellen e conversava quando saíamos todos juntos, mas que nunca a engoliu. Perguntei o porquê de ela não ter me contado essa história antes e ela disse que estava com raiva de mim, fora que ela teve receio de parecer que estava com ciúmes. Fiquei perplexa com a situação. Que menina maluca! Inventava histórias pelas nossas costas! Relembrei que nesses três meses uma vez ou outra em que ela falava algo ruim sobre Carlos e John também, mas não eram comentários tão ácidos quanto estes. Fui para casa e fiquei pensando no que poderia fazer. Como Carlos e Ralph haviam dito para deixarmos quieto e ver no que ia dar, resolvi ficar na minha.


Os dias foram passando e Hellen cada vez mais inventava mentiras e falava mal de nós pelas costas. Cada vez que ouvíamos algo, corríamos para contar para os outros. Fizemos um grupo secreto sem ela só para comentar as coisas que ela dizia por trás. Começamos a evitá-la. De início ela não percebeu, com o tempo começou a perguntar no grupo por que andávamos tão calados ou por que não marcávamos mais de sair. Cheguei a pensar em pedir pro Carlos perguntar para os gêmeos Nathan e Yuri se ela agia com eles assim também, mas os meninos estavam há quase três meses fazendo um intercâmbio na Austrália. Ainda sim fiz a sugestão e falei para Carlos perguntar pelo Facebook, todos gostaram da ideia e Carlos enviou uma mensagem para eles, do qual demoraram três dias para responder. Já havia perdido as esperanças e neste dia estava concentrada fazendo um trabalho da faculdade, quando Carlos apareceu no chat do grupo sem a Hellen com novidades.

‘’PESSOAL, VOCÊS NÃO VÃO ACREDITAR NO QUE DESCOBRI!’’ Foi a frase que li após ouvir o barulhinho de mensagem nova.


Resumindo bem a história: Carlos tinha conseguido resposta de Yuri. Ele tinha puxado um papo bem genérico antes, de como estava à viagem. Yuri pediu desculpas pela demora em responder e explicou que a internet era péssima, depois contou um pouco sobre as loucuras do intercâmbio. Após uma meia hora de papo furado Carlos entrou no assunto. Perguntou para de onde ele conhecia a Hellen, a menina que tinha ido ao aniversário dele. Nesse momento Yuri começou a rir e perguntou se Carlos estava mongol. Carlos não entendeu nada. Yuri disse que não havia levado menina nenhuma pro aniversário dele. Disse que se lembrava de Hellen, que até a achou bem bonitinha e com cara de triste e sem amigos, mas nunca havia visto ela antes. Carlos ficou surpreso e perguntou se havia chances do irmão dele a conhecer, pois ela disse que teria vindo com os dois. Yuri disse que se seu irmão Nathan a conhecesse ele provavelmente a conheceria também, e assegurou que ela não teria ido com eles para o bar. Carlos ficou impressionado e nos disse que algumas horas depois conseguiu falar com Nathan e ele disse o mesmo, que nunca a havia visto na vida. Ficamos todos em choque. Como Hellen apareceu lá no bar, no dia do aniversário de Carlos? Por que havia mentido sobre conhecer e ser amiga dos irmãos? Por que estava mentindo tantas coisas para todos nós, inventando histórias e sempre querendo causar intrigas? Começamos a achar que estávamos lidando com uma pessoa esquizofrênica ou com algo do tipo. Resolvemos que peitá-la e perguntar sobre as coisas poderia ser perigoso, pois não sabíamos com quem estávamos lidando.

Depois disso as coisas foram ficando cada vez mais esquisitas. Fizemos um voto de segredo no nosso chat sem a Hellen, mas no chat com ela era visível que ela estava desconfiada de algo. Começamos a perceber que tudo que sabíamos dela era bem vago. Não conhecíamos sua casa, sua família... Ela dizia que fazia faculdade a distância de Turismo, o que era bem vago também. Não conhecíamos seus amigos, sua lista no Facebook era restrita e não era visível e só sabíamos de Nathan e Yuri, o que tínhamos acabado de descobrir que era mentira. Poderíamos estar lidando com uma psicopata! Ou uma assassina. Resolvemos que tentaríamos falar com seus pais, para coletar mais informações. Ralph teve a ideia perfeita. Eu e Camille a chamaríamos para tomar um café enquanto eles fossem até sua casa e tentariam conversar com seus pais. Achei a ideia meio arriscada, mas concordei. Marcamos no chat com Hellen o café, disse que seria uma tarde das garotas e ela topou. Camille disse que poderíamos buscá-la em casa e ela aceitou, então marcamos para o dia seguinte, num sábado.


Tarde de sábado, passamos em sua casa e como de costume ela já estava na porta. Como sempre, ela estava com seu uniforme básico e de bom gosto, tênis, calça skinny preta e dessa vez camiseta preta. Usava sua jaqueta de couro e entrou no carro com seu olhar angustiado. Deu seu famoso sorrisinho amarelo quando nos viu e seguimos para o café. O plano era bem simples, chegaríamos lá e eu mandaria uma mensagem para Ralph, que já estaria próximo a casa com Carlos e John. Assim que eu desse um ok eles bateriam na porta e pediriam para conversar com os pais dela.


Ficamos a tarde toda com Hellen, no momento em que estávamos juntas até tinha me esquecido do quão falsa ela era. Camille como sempre dava algumas alfinetadas, mas a conversa fluiu. Só me lembrei de sua falsidade no momento em que ela começou a falar de John e de quanto ele era feio. Eu e Camille encenamos bem, ríamos e concordávamos.


Algum tempo depois Ralph me mandou uma mensagem dizendo que poderíamos vir embora e que tinha muitas coisas pra nos contar, para nos apressarmos em sair de lá. Ficamos mais um pouco, disse que tinha marcado de sair com Ralph e precisávamos ir, pagamos a conta e deixamos Hellen em casa, e como sempre, saímos sem esperar que ela entrasse. Fiquei olhando pela janela e a vi parada em frente à porta como John havia descrito uma vez, ela estava olhando fixamente para a porta e não a vi entrar. Quando Camille virou a esquina a perdi de vista. Mandei uma mensagem para Ralph e ele disse para nós seguirmos até sua casa, onde estava com os meninos. Chegamos lá e John soltou um ‘’ATÉ QUE ENFIM’’ bem alto. Sentamos nos fundos da casa de Ralph e ele começou a nos contar o que aconteceu enquanto estávamos no café. Disse que chegaram à casa de Hellen e bateram na porta, e depois de alguns segundos uma mulher muito elegante os recebeu. A mulher era bem pálida como Hellen, alta e magra. Tinha cabelos castanhos escuros e formavam cachos nas pontas, Estava com um vestido bem elegante floral branco e vermelho, bem justo ao corpo. Aparentava ser jovem. Ela atendeu a porta com um enorme sorriso e tinha os olhos arregalados. Eles perguntaram se Hellen estava em casa e a mulher demorou um tempo em responder, continuou com aquele enorme sorriso assustador no rosto, até que decidiu falar e disse que não tinha nenhuma Hellen morando ali. Carlos perguntou se havia alguma menina de vinte e poucos anos que morava ali e ela mais uma vez demorou um pouco para responder e disse que não, ainda sorrindo, e completou dizendo que ali só moravam ela, o marido e o filho pequeno. O marido ouviu o movimento e apareceu na porta, este era mais baixo que a mulher, semi-careca, cabelos negros e curtos, óculo de leitura e suéter, de acordo com John tinha cara de ser bem caro. Ele tinha no rosto uma expressão séria e perguntou o que estava acontecendo. Eles explicaram a situação para o homem, enquanto a mulher alta continuava com seu sorriso assustador e olhos arregalados de ponta a ponta. O homem se fez surpreso de primeiro momento e um pouco irritado em seguida; e no mesmo instante apareceu uma criança correndo até a porta, que supostamente era o filho do casal. O menino vestia um suéter semelhante a do pai, tinha cabelos castanhos e chegou perguntando se era algum presente para ele, então a mulher o pegou no colo e pediu para que ele ficasse quietinho, sem tirar o seu sorriso do rosto. O homem logo cortou o papo, disse que estava cansado de testemunhas de Jeová indo até a porta dele contando causos absurdos e disse para não aparecessem mais. Logo em seguida bateu a porta e ficou tudo mais confuso ainda.


Após eles terem nos contado tudo, fiquei pensativa. Quem era Hellen? Com quem estávamos lidando? Pelo menos tínhamos uma explicação razoável para ela nunca entrar em casa antes de sairmos de perto e sempre estar já na porta da casa quando chegamos para buscá-la. Era possível que ela não morasse ali. Mas também era possível que ela fizesse parte de uma família de loucos que não aceitavam a filha.

Tentamos desvendar esse quebra-cabeça durante um bom tempo. Ficamos algumas horas pensando nas possibilidades, até que resolvemos que iríamos tirar a história a limpo de uma vez por todas, naquela noite. Cada um ficaria com seu respectivo celular e falaríamos no chat com ela, mas estaríamos todos juntos. Resolvemos que não seria uma boa confrontá-la pessoalmente, e hoje em dia me bate um leve arrependimento dessa decisão. A chamei no chat do grupo e ela logo respondeu. Comecei a falar. Disse que estávamos todos bem chateados com o que ela andava fazendo.  Cada um foi falando alguma coisa nesse momento. Comentamos as mentiras que ela inventou de cada um de nós para o outro; Depois Carlos comentou dos gêmeos Nathan e Yuri. Ralph então falou que achávamos tudo que ela contava da vida dela muito estranho e vago, e para finalizar, John disse dos momentos bizarros de deixá-la em casa e ela nunca entrar enquanto alguém tivesse olhando. Também contou que foram até a casa dela, e descobriram que ela poderia não morar lá, ou então que os pais dela não a aceitavam. No chat fora aparecendo as confirmações de que Hellen estava lendo todas as mensagens assim que elas eram enviadas, mas continuava calada. Em momento nenhum ela falou.


Quando John terminou de falar, Camille falou que era a hora dela parar de mentir tanto, que estávamos cansados disso tudo. Disse que era a chance para se explicar e dizer a verdade. A mensagem apareceu como lida. Hellen continuava calada. Esperamos alguns minutos, até que perdi a paciência e pedi para que ela falasse algo. Mensagem lida. Nada de resposta. Comecei a ficar irritada. Puxei a aba do chat privado e comecei a perguntar por que dela não responder. Mensagem lida. Nenhuma reposta. Ficamos duas horas esperando algo, e nada de resposta. Camille resolveu ir embora, perdeu a paciência. Com o tempo, cada um foi indo embora da casa de Ralph, eu continuei lá com ele. Quando deu meia-noite chequei o celular na esperança de alguma resposta e nada. Hellen aparecia na aba do chat como ‘’online 5h atrás’’. Fiquei cansada e resolvemos dormir.


No dia seguinte, algo esquisito aconteceu. Todos tínhamos recebido uma ligação de Hellen exatamente as 04h44 da manhã. Ninguém atendeu na hora que isso aconteceu, pois todos estavam dormindo, então acabamos vendo a ligação perdida pela manhã. O curioso é que todas as cinco ligações foram feitas no mesmo horário, é como se ela tivesse conseguido ligar para todos nós ao mesmo tempo. Tentei retornar assim que vi a ligação, mas deu como fora da área de serviço. Aparentemente todos tentaram o mesmo, sem sucesso. Checamos o Facebook e tivemos uma surpresa. Onde estava o perfil de Hellen? Ele havia sido desativado! Não havia vestígios nenhum dela. E não tínhamos com o perguntar sobre ela para ninguém, pois seu perfil era todo trancado e não era possível ver quem ela tinha como amigo na época em que estava ativado, sua lista de amigos era oculta. Tentamos ligar mais algumas vezes, mas o número dava fora de área de serviço sempre. Resolvemos no dia seguinte ir todos juntos até a suposta casa dela, e mais uma vez a mulher e seu marido atenderam. Mais uma vez o homem falou que não estava interessado na palavra de Jeová e bateu a porta em nossa cara. Ficamos todos intrigados. Tentei mandar e-mail, mas sempre aparecia uma resposta automática de falha no envio. Acho que ela havia desativado este também. Chegamos até a ligar na faculdade a distância da qual mencionou que fazia e pedimos informações, mas quando informamos o nome e sobrenome dela, a faculdade disse que não havia nenhuma aluna matriculada com este nome. Era de se imaginar.

E assim Hellen sumiu de nossas vidas da mesma forma que entrou. Hoje já faz um ano desde que ela desapareceu. Temos algumas teorias: Seria Hellen um espírito? Uma aparição? Um alien? Ou seria uma pessoal real, da qual os pais é que eram esquizofrênicos e negavam a existência da filha? Seria uma maluca psicopata? Nunca vamos saber.


Às vezes a mencionamos em nossas conversas. Carlos não gosta, diz que dá arrepios lembrar-se dessa pessoa tão misteriosa e que sumiu de uma forma que parece que nem existiu. Eu às vezes sinto saudades das nossas conversas. Camille fica aliviada dela não estar mais entre nós. Depois de algumas semanas do ocorrido vimos que o casal e seu filhinho se mudaram da grande casa. Uma vez passando por ali indo pra casa de Ralph eu, Camille e Carlos vimos o casal fazendo a mudança. O homem nos olhou assustado quando passamos com o carro por ali. A mulher magra e elegante ainda tinha o sorriso e olhos arregalados de sempre.


Toda vez que passamos por ali sempre olho para a porta vazia e me lembro do estranho hábito de Hellen em ficar em pé olhando fixamente para ela. Que pessoa peculiar e esquisita era ela! Mas um dia, de madrugada, eu e Ralph passamos por ali voltando de uma festa. Não sei se era efeito da bebida alcoólica ou do sono, só sei que assim que passamos por lá olhei pela janela e juro que a vi em pé lá, com as mesmas roupas, estática, sem se mexer, olhando para a porta. No momento me arrepiei toda. Olhei o horário no painel do carro. Eram 04h44 da manhã. Olhei de volta e ela não estava mais lá. Ralph viu o mesmo que eu. Nos olhamos e decidimos definitivamente que estava em tempo de mudarmos a trajetória do nosso caminho da próxima vez que estivéssemos indo para a casa dele.

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