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Sentar ao lado de um assassino é uma das coisas mais difíceis que você pode fazer. Por todo o jantar ele me encarou como se já soubesse que eu havia invadido a sua casa. E pior: ele poderia já ter matado os meus amigos. Eu sei que 'macumba' não é a melhor forma para definir isso mas com certeza esse cara tem algo de sobrenatural.

- E então, senhor Silva, do que o senhor trabalha? - Meu pai quebrou o silêncio.

- Sou empresário. - Ele respondeu.

- Eu também tenho uma empresa. Fabrico sandálias. - Meu pai respondeu.

Minha mãe chegou logo depois com a comida, uma lasanha. Faz tempo que ela não faz comidas assim.

Comi o mais rápido que pude e fui direto para o meu quarto. Meu pai ainda tentou me chamar mas eu não dei ouvidos. Tudo que eu queria era me esconder nas minhas cobertas e dormir.

Não demorei para dormir, surpreendentemente. Acordei no meio da noite, ofegante e transpirando. Estava me levantando para ir pegar um copo de água, mas parei no meio do caminho.

Ouvi um chiado atrás de mim e me virei rapidamente. Minha janela estava aberta. Fui até lá e a fechei. Fiz a pior coisa que poderia fazer: ignorar.

Me deitei novamente e me cobri dos pés à cabeça. Dessa vez meu sono foi conturbado. Eu ouvia sussurros que não sabia se eram da minha imaginação ou reais. Sentia que eu estava caindo e que meu corpo estava pesado. Foi a pior noite que eu já tive.

A manhã veio como um porto-seguro. Minha janela estava aberta de novo, mas eu ignorei mais uma vez. Eu não tinha colocado a tranca, e poderia ter sido o vento. Desci as escadas e fui em direção da cozinha. Minha mãe estava preparando o café enquanto meu pai lavava a louça.

- Val, pode ir acordar a sua irmã? - Minha mãe pediu.

O quarto da minha irmã fica ao lado do meu, no andar de cima. Subi as escadas e fui para lá. A porta estava fechada. Girei a maçaneta e entrei. Quando abri a boca para chama-la acabei liberando toda a lasanha de ontem à noite.

O corpo dela estava estirado no chão, nu e todo mordido. Pedaços de carne tirados provavelmente à dentadas de todas as partes do corpo. Sua barriga estava aberta, saindo várias tripas de lá. As paredes e o chão estavam manchados de sangue. Na parde ao lado da cama estava escrito bem grande '2/4'. Após liberar o jantar soltei um guincho estrangulado.

Meu pai subiu as escadas correndo. A visão também o perturbou. Ele se ajoelhou no chão e chorou. Os seus soluços atraíram a minha mãe. Com ela foi pior. Ela gritou tão alto que poderia acordar toda a rua - E foi isso que aconteceu. - e não foi só um grito. Ela gritava e batia a cabeça na parede. Meu irmão que até lá estava dormindo se levantou e foi até o quarto. Minha mãe não queria sair de perto do corpo da minha irmã, e doi necessário que meu pai e meu irmão a tirassem dali.

Meu pai ligou para a polícia e os policiais chegaram em 10 minutos. Nós demos o nosso testemunho e eles foram embora. Esse acontecimento só reforçou a minha teoria de que Reginaldo Silva escondia um segredo maléfico.

Foi no dia seguinte que veio a bomba. Iamos nos mudar. Eu, é claro, não concordei. Não podia deixar os meus amigos para trás. Eles não deram chance. Nós iamos nos mudar em uma semana.

Saí de casa quase chorando. Me sentei na calçada e fiquei encarando o chão até as lágrimas irem embora. Um assobio me tirou dos meus devaneios. Um frio correu a minha espinha assim que vi a origem do assobio. Reginaldo estava encostado na sua cerca, e pior, me chamando.

Não tive coragem de ir.

- Venha aqui, garoto, eu não mordo. - Ele chamou.

Me dirigi até ele, tinha ainda menos coragem de ficar parado ali correndo o risco de enraivecer ele. Ele passou um longo tempo me avaliando até que disse:

- Eu sei o que aconteceu.

Meu corpo gelou. Como ele poderia saber que eu entrei na casa dele? E ainda mais, o que ele faria comigo agora que eu já sabia de tudo?

- Eu... - Tentei falar, mas as palavras sufocaram na minha garganta.

- Calma, não precisa dizer nada. Meus pêsames.

- Pêsames?

- Sim, eu soube o que houve com a sua irmã. Trágico.

- Oh. Sim, sim. Trágico. - O frio sumiu do meu corpo. Pelo menos eu ainda estava à salvo.

Ele voltou para dentro de casa e eu fiquei um tempo ali parado ao lado da cerca. Era surpreendente como esse lugar parecia tão morto.

Voltei para dentro de casa. Meu pai estava sentado no sofá, encarando o vazio. Subi as escadas e fui para o meu quarto. Ainda era cedo mas eu queria que aquele dia acabasse logo.

Diferente de todas as outras noites, eu demorei para dormir. Eu suava como um porco perto do abate e sentia um calor enorme no meu corpo. Demorei muito para dormir, e preferia ter ficado acordado.

Eu estava numa floresta escura. Não conseguia enxergar nada na minha frente a não ser algumas árvores. Meu estômago roncava de fome. Caminhei alguns metros pela floresta, metros que pareciam quilômetros, até chegar numa pequena cabana. Entrei nela e me deparei com algo muito maior por dentro. Era idêntica à minha casa, mas eu só fui notar isso quando acordei. Subi as escadas e entrei na segunda porta, a da minha irmã. Havia alguém deitado ali. Tirei a coberta de cima revelando a minha irmã. Ela estava dormindo, mas viva.

Um desejo enorme correu o meu corpo. Desejo de carne. Carne humana. Peguei o seu braço o mordi. "Um pouco do carne não vai fazer falta." Pensei. Esse pouco de carne se tornou o corpo inteiro. Devorei toda a carne do seu corpo até só sobrarem ossos.

Após terminar o meu banquete fui até o outro quarto, o meu. Abri a porta e entrei. Deitado na cama estava ninguém menos que eu. Eu tenho total certeza de que era eu porque logo que acordei consegui ver por uma fração de segundo uma sombra enorme me observando.

A imagem não saiu da minha cabeça, e duvido que um dia sairá. O corpo todo negro, afinal era uma sombra . Os dentes pontiagudos, abertos no sorriso, chifres enormes voltados para baixo com algo felpudo no final.

A boca manchada de sangue. E entre as mãos ele levava um coração, ainda pulsante.

V.S.C

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