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Essa história aconteceu comigo quando eu tinha mais ou menos 11 anos, e eu nunca tive coragem de contá-la pra ninguém pois me chamariam de doido. Era uma tarde de sexta-feira, um dia de chuva, o céu estava bem dublado, eu e minha mãe estávamos em casa fazendo os preparativos para a festa surpresa da minha irmã, que estava na faculdade, era seu aniversário de vinte e um anos. Estava sendo uma tarde bem gostosa, nós enchíamos balões, minha mãe preparava a cobertura do bolo enquanto o rádio tocava ao fundo, enfim, uma tarde agradável. Foi quando o telefone tocou. Era quatro horas da tarde. Eu ouvi o toque do telefone fixo, que ficava na sala e fui atender, pois minha mãe estava com as mãos nas massas de pastel, detestava atender telefone porque nunca era pra mim, mas dessa vez eu fui.

– Alô? – eu disse, com um ar casual, no mínimo seria algum parente ligando para desejar a minha irmã feliz aniversário. 

– Vera? Você precisa me ajudar, Vera — disse uma voz desesperada e chorosa ao telefone. Vera é o nome de minha mãe.

– Não é a Vera... é a filha dela, quem gostaria? – perguntei, desconfiada, aquilo era definitivamente estranho. 

''As ferragens, eu estou preso nas ferragens e você precisa me ajudar, está muito gelado e eu estou sangrando, está tão gelado aqui, você precisa me tirar daqui, tem sangue por toda a parte'' disse a voz enquanto chorava ao mesmo tempo. Meu coração gelou na hora, enquanto batia cada vez mais rápido, achei ser um trote, mas se aquilo fosse um trote, seria de muito mau gosto. Resolvi olhar na Bina, e pra minha surpresa era o número do meu tio, Darci, que ligava. 

– Tio Darci? – eu perguntei, nesse ponto já não entendendo mais nada.

''Sou eu, Darci, Vera, me ajude, por favor, já não consigo ver nada, está tudo escuro, e tudo que eu vejo é sangue, tem cacos de vidro por toda a parte'' ofegou a voz.''

''Tio, onde você está?'' eu perguntei, agora me preocupando seriamente, enquanto isso minha mãe veio até a sala e perguntou com movimentos labiais quem era. Eu fiz um sinal para que ela esperasse. 

''Vou sentir sua falta'' respondeu a voz, e desligou. Eu estava completamente transtornada e agora soando frio, aquilo não fazia o menor sentido. ''Quem era?'' perguntou minha mãe quando coloquei o telefone no gancho. Eu não tinha certeza de que aquela ligação fosse real, talvez a Bina estava com problemas e o número não era de meu tio, apesar da voz ser muito semelhante, talvez fosse só um trote. ''Ninguém, era engano'' eu disse para minha mãe tentando não a preocupar,e voltei pra cozinha. 

Voltamos para a cozinha e depois de umas duas horas eu já tinha enchido todos os balões e agora ajudava minha mãe com os salgadinhos,foi quando o telefone tocou novamente, e dessa vez minha mãe que foi atender. Eu continuei trabalhando nos pastéis quando minha mãe deu um grito e saiu correndo porta fora. Eu fui até a porta pra tentar pedir onde ia, mas ela já estava acelerando o carro. Aquilo era muito estranho, havia deixado o fogão e forno ligado, no final das contas ia sobrar tudo pra mim.

Deu umas nove horas da noite quando minha mãe voltou, dessa vez trazendo a família toda consigo, incluindo minha irmã, todos estavam com um pesar nos olhos, alguns choravam, e minha avó apoiava minha mãe nos braços. ''O que houve?'' eu perguntei.''Seu tio morreu, tio Darci morreu em um acidente de carro'', respondeu minha mãe enquanto lágrimas caiam de seus olhos, então eu abracei-a, perplexa, aquilo não podia estar acontecendo. 

Ficamos a noite toda acordadas, com os familiares junto conosco, agora invés de uma festa surpresa, preparavam o velório de meu tio, um dia lindo havia se transformado em uma tragédia, e eu não conseguia tirar aquela ligação da cabeça. A festa de aniversário de minha irmã foi totalmente cancelada, e o dia após o acidente fomos ao velório. Chegando do velório minha mãe foi se deitar, queria ficar sozinha e eu fiquei na sala, assistindo TV, precisava de algo para me distrair. Foi quando o telefone tocou novamente, no mesmo horário do dia anterior, as quatro horas da tarde. Eu atendi. 

– Você devia ter me salvado – disse a voz ao telefone, a de tio Darci. 

Eu gelei completamente e desliguei o telefone em um baque, fiquei em choque e corri para o quarto de minha mãe de medo. Depois daquele dia, sempre quando dá quatro horas, o telefone toca, mas eu nunca mais tive coragem de atender. 

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